quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Dona Clarice

    Dona Clarice é mãe de 3, vó de 8 e bisavó de outros 8, o que não a impede de ter cabelos tingidos de um vermelho forte. Seus pais já eram fabricantes de imagens quando ela nasceu e cada filho, a depender da idade, recebia uma função na fábrica doméstica.

    Seguiu a tradição da família e tem hoje uma loja na Feira da Torre. Conhece todos os santos e vende imagens mesmo daqueles mais desconhecidos. Só não vende crucifixos, porque diz que seu Jesus não está na cruz e também não há de voltar: já está em nós.

    Ela usava pulseiras de pedras e uma camiseta de São Jorge, mas sem o dragão. Disse que não gostava daquele bicho. Suas imagens de São Miguel Arcanjo também não tem o demônio subjugado.

    Recentemente sacou suas economias para guardar em casa, com medo de que se repetisse o mesmo que no governo Collor.

    Falou com entusiasmo do papa Leão XIV e deu-nos santinhos com a oração de São Bento.

    A pedido, seu irmão escultor, que morreu de câncer aos 57 anos, fez essa imagem, gravando nela seu próprio rosto, assim como fizera em um São Jorge.

    Uma cliente budista gostou dessa imagem do Senhor e pediu uma assim, mas que não tivesse o Sagrado Coração, a fim de se adequar às suas doutrinas. Dona Clarice se espantou: "mas como pode, um homem sem coração?"


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