quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Recrutas

 Todo ano, as Forças Armadas incorporam cerca de 90 mil soldados recrutas.

Depois de um período de formação de até um mês em regime de internato, os recrutas passam a cumprir expedientes de 8h/dia, somados a serviços de 24h cerca de duas vezes por semana (ou mais) somando 70h semanais sem dificuldade.

O serviço de 24h exige que o militar tenha apenas 6h de sono somadas ao longo do dia (descontando o tempo de alimentação, higiene e deslocamento).


Além do serviço de 24h de sentinela armado, o soldado recruta também trabalha 24h como vigilante desarmado, com zh de serviço para cada 4h de serviços gerais ou “descanso"

Os soldados recrutas, durante o expediente, são empregados também em obras, faxina, jardinagem, mecânica, cozinha, controle de estoque etc

Obs: o serviço de 24h se dá também aos finais de semana e, nos meses de JAN-FEV, se dá, geralmente, dia sim, dia não


Conhecemos o nosso país e já não esperamos muito. Acontece que o buraco é bem mais embaixo.

Amanhã, no primeiro dia útil do mês, cerca de 90 mil soldados recrutas receberão R$ 1078,00

como pagamento por mais um mês de serviço. Isso mesmo.

Apenas 2/3 do salário mínimo.


Para não ser acusado de injusto, ressalvo que, como "adicional militar" , O recruta recebe mais R$ 122 e, como vale-transporte, entre R$ 400-600,00

Entretanto, como o Exército não é regido pela CLT, os recrutas deixam de receber outros "benefícios" a que, pra fora dos portões do qual, todos os trabalhadores fazem jus: hora extra, auxílio alimentação, adicional insalubridade, adicional noturno, adicional periculosidade...


"Mas pelo menos os militares se aposentam mais cedo, né?" Sim... Os militares concursados, chamados "de carreira". Recebem, inclusive, a integralidade dos vencimentos a partir da aposentadoria, que pode ser concedida, grosso modo, a partir dos 35 anos de serviço.

Os militares temporários, dentre os quais estão os soldados e este que vos fala, podem apenas contabilizar o tempo de serviço para a aposentadoria.

Entretanto, um ano de serviço militar é equiparado a um ano de trabalho num emprego qualquer, ainda que com, sem dificuldades, o dobro da carga horária e ausência completa das garantias trabalhistas apresentadas.


Atenção, caro leitor:

essas condições de trabalho não se dão à revelia da lei, em algum supermercado de interior, para algumas dezenas de trabalhadores.

São lei.

É a lei, com o consentimento do Estado brasileiro e do Comando das Forças Armadas, que submete, todos os anos, 90 mil jovens brasileiros a condições de trabalho que, se encontradas para fora dos portóes dos quartéis, constituiriam verdadeiros crimes contra a dignidade da pessoa humana e os valores constitucionais.


Com razão, debate-se a questão da precarização do trabalho neste país.

Discussões sobre o fim da escala 6xI, a insuficiência do salário mínimo e a necessidade da ampliação de garantias trabalhistas são comuns nos nossos parlamentos, universidades e movimentos sociais.

Mas por que deixar de lado os trabalhadores mais vulneráveis do nosso país? Por que o próprio Comando das Forças Armadas parece esquecer que metade de seu efetivo sofre em condições, de acordo com nossa própria legislação trabalhista, desumanas?


O soldado "pintor de meio-fio" não merece ser objeto das nossas piadas, para que possamos expressar nossa insatisfação com as decisões do Alto Comando de hoje e de outros tempos.

Ele é um trabalhador, como somos todos nós. É, todavia, o mais esquecido, o que sofre com a maior precarização, o mais subempregado, conquanto, quase sempre, um dos nossos melhores e mais idealistas cidadãos.

O soldado entrou nas FFAA para servir ao povo brasileiro, sabendo que isso poderia custar a sua própria vida.

Esses valores ainda estão bem vivos na sua alma.


O soldado também não merece ser objeto de nossa pena. Nunca pediu por isso. Nunca reclamou. Militar que é, pela própria legislação, não tem sequer esse direito.

Isso deveria ser motivo para que seu trabalho fosse mais valorizado.

Na prática, serve apenas para manter sucateada as nossas instituições que servem de recurso extremo quando todo o Estado se vê impotente.

Brasileiro que é, sorri mesmo nas dificuldades, brinca como qualquer jovem, mas também se orgulha da nação mais do que qualquer um.

Na guerra, é quem primeiro derramaria sangue. Que sejam reconhecidos como tal, pelo nosso povo e, principalmente, pelas nossas instituições.


Esqueci de um agravante:

a Lei 6.880 de 1980, o Estatuto dos Militares, proíbe o exercício de outra profissão ou atividade comercial aos militares.

Eu mesmo já vi o caso de um soldado que, apesar de seu bom desempenho, foi preso e mandado embora por ter sido visto por um superior fazendo "bico" de entregador à noite.

Ele trabalhava o dobro do permitido pela legislação trabalhista, ganhava 2/3 do salário mínimo e, no pouco tempo livre que The restava, foi trabalhar para ajudar a família em casa.

Preso e demitido. Legalmente.

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