“All that is gold does not glitter, not all those who wander are lost”
1- Vivemos num mundo composto somente daquilo que percebemos. Pessoas que vivem num mesmo ambiente podem percebê-lo completamente diferente a depender daquilo a que dão atenção: um sociólogo não vê um aparelho celular como o engenheiro de software o vê e o comerciante tem ainda uma outra visão. Elementar.
Além disso, a percepção do tempo é moldada pela quantidade de informação que absorvemos. É por isso que mesmo um acidente de carro que durou poucos segundos parece ter durado muito mais: nosso “modo de sobrevivência”, que surge quando estamos em situações de estresse, faz com que nenhum detalhe passe em branco. Por outro lado, uma noite passada em claro, no dia seguinte, parece ter passado rápido. Como se estava cansado, o cérebro não registrou informações e não há muito do que se lembrar, diminuindo a memória em espaço (poucos detalhes) e, consequente, tempo.
2- Locomoção urbana, hoje em dia, se dá por dois meios principais: carros e ônibus. Cada um desses meios, como qualquer meio, não é mero instrumento passivo de uma ação determinada, mas molda essa ação na medida que a sua natureza material restringe as possibilidades. Simpliciter: escrever com um marca-texto implica uma caligrafia diferente do que se fosse usada uma caneta. Costurar com uma máquina é diferente de costurar com agulha. E andar de carro implica uma diferença a andar de ônibus. Elementar.
3- Como se pode descrever a diferença entre andar de carro e andar de ônibus?
O carro tem destino certo: entramos nele sabendo aonde vamos e só vamos parar lá. O tempo transcorrido desaparece por entre a sucessão de músicas e o próprio deslocamento se esvanece ante a urgência de chegar. O destino é o que importa e só daremos alguma atenção maior a algo que se coloque entre nosso carro e ele.
O ônibus, por sua vez, não tem destino. Nunca chega a lugar algum (mas passa por todos). Quando entramos nele, sabemos que percorreremos vias alheias à nossa rota e que faremos paradas em desacordo à nossa intenção. Mas também não temos a preocupação constante com acidentes e nem a ansiedade de evitar desvios (porque temos a certeza de que, necessariamente, ocorrerão).
4- A diferença entre esses dois meios de locomoção descreve duas maneiras de transpor não somente o espaço, o que é mover-se, mas também de transpor o tempo, o que é viver. Há uma visão de mundo, moderna, que é sempre “goal-oriented”: sempre há alguma conquista futura a determinar o que devemos, ou não, fazer hoje. Como no carro, há somente destino, que importa, e deslocamento, que só serve e existe em função do destino. Os dias são hierarquizados entre os de planejamento e preparação, secundários, rotineiros e desimportantes, e os de execução e fruição, que realmente valem a pena viver. Se esses dias secundários forem conforme a meta, ela será alcançada e inaugurará um período de paz e satisfação, que durará até a próxima meta surgir no horizonte. Terminei a faculdade. Passei no concurso. Casei. E sempre haverá uma próxima meta, se não pela variedade de conquistas que são esperadas de nós, pelo menos porque, após a “ânsia de ter”, costuma vir a “angústia de possuir”.
Há também a visão do ônibus: “minhas raízes estão no ar, minha casa é qualquer lugar”. Há infinitas paradas, todas hierarquicamente iguais, pois não há destino algum. Não há ansiedade de encontrar um obstáculo, porque não há via única a obstruir. Essa visão é a do aventureiro, do andarilho. Os dias são vividos em função de si mesmos e, por não haver meta, não há tantos filtros de percepção da realidade. Ao invés de só se preocupar com a rua em que deve virar para chegar em casa, o andarilho se preocupa com todas as ruas, pois pode virar em qualquer uma delas. Já que não se sabe o que virá, prestamos atenção em tudo, porque tudo pode ser uma dica. Como não há dia mais especial, todo dia é especial.
Dias mais preenchidos (fulfilled) pelas lembranças-surpresa de tudo que se encontra num passeio sem rumo costumam ser bem mais satisfatórios (fulfilling) do que aqueles dias que podem ser descritos antes mesmo de acontecerem. Por hoje, é só.
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