domingo, 19 de maio de 2024

Quod scripsi, scripsi (Jo 19, 22) & Ecce nova facio omnia (Ap 21, 5)

    Pilatos era um homem prático. O imperador romano o havia nomeado governador da Judeia, como consequência de uma vida de dedicação à carreira pública. Sua missão não era qualquer uma: a dignidade do seu cargo lhe custou uma transferência para a periferia do império, longe demais do mundo em que nasceu e pelo qual vivia. Aquela região era povoada pelo grupo religioso que mais dava trabalho ao imperador, por recusar-se a cultuá-lo, e era polvilhada por revoltas e crises políticas internas e externas.

    Num belo dia primaveril, Pilatos recebe em seu palácio as mais importantes autoridades religiosas locais que lhe entregam um homem inocente. A história é conhecida: o inocente é Jesus Cristo e aqueles que querem matá-lo são os que ficaram registrados na historiografia cristã como "os Judeus". Pilatos não quer punir a Cristo, quanto mais crucificá-lo. O clamor da turba e ameaça de revolução, todavia, o impelem a fazê-lo. Ele cede. Lava as mãos, afirma-se inocente, solta um bandido e crucifica Jesus.

    Mandará escrever na cruz, como que para registrar a causa da condenação, "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus". Os Judeus se incomodam, por não reconhecerem em Jesus o seu rei, mas Pilatos, já tendo feito o que eles queriam, acha ocasião para resistir e afirma "O que escrevi, escrevi" (Jo 19, 22).

    Seja quando cede ante os Judeus, seja quando lhes resiste, Pilatos nunca retrocede. Ele sabe que retroceder é mostrar fraqueza, que um bom militar ou governante nunca volta atrás. Esse raciocínio faz sentido: o pressuposto de retroceder é reconhecer que deveria ter sido diferente, mas não há espaço para esse tipo de pensamento durante um conflito. Não há como voltar atrás - data venia, a merda já está feita - e o caos da situação urge e exige uma resposta aos novos problemas gerados. Para um homem como Pilatos, peça de um sistema de poder, não há tempo para arrependimento. Seu lema tem de ser o cumprimento da missão e nada mais é digno de preocupação.

    "Never apologize, never explain" também explica essa mentalidade. Não serei eu a dizer que não é ela eficaz. Grandes homens viveram por ela e conquistaram tudo que havia para ser conquistado debaixo do Céu.

    Me ocorreu hoje de contrapô-la a outra passagem das Escrituras, proferida, conforme narra São João Evangelista, pelo próprio Cristo: "Eis que faço nova todas as coisas" (Ap 21, 5).

    Frase muito esquisita essa. Aquilo que a experiência nos aponta indubitavelmente é que o tempo necessariamente passa, que as coisas mudam e que não há nada que seja perfeitamente reversível. Se nem os processos físico-químicos mais elementares não exatamente reversíveis (quando desenferrujamos uma barra de metal, ainda que ela brilhe como antes, perdeu parte de sua massa no processo), que dirá os processos biológicos e, com mais razão ainda, os sociais.

    Jesus, no entanto, afirma esse contrassenso. Não diz nem sequer, o que já seria admirável, "arrumo todas as coisais", "tapo todos os buracos", nem mesmo "faço como que novas todas as coisas", mas sim "faço novas todas as coisas". Se parece idiotice acreditar, maior idiotice seria duvidar d'Aquele que nos deu tantos motivos tangíveis para crer.

    Diferente da visão de mundo dos homens fortes, que não vê motivos para repensar o passado, Cristo nos convida a não somente repensá-lo, mas a revivê-lo em nossa memória e, reconhecendo que deveria ter sido diferente, chorar sobre ele, implorando que seja apagado.

    Para reconhecer que errou, uma pessoa não necessariamente precisa saber qual era o certo. Pilatos podia não ver saída para o dilema entre condenar um pobre inocente ou ver sua província arder em chamas e, devemos admitir, provavelmente não havia saída que ele pudesse enxergar. Mesmo sabendo disso, todos também reconhecemos que ele errou. A única solução naquele caso e em muitos dos nossos seria, talvez, desistir. Desistir de querer ter as soluções, desistir de tentar ter o controle da situação e reconhecer que Deus concretamente intervém na história.

    Se, ao invés de lavar as mãos, Pilatos as tivesse erguido em súplica e desistência aos Céus, Deus teria dado seu jeito de livrá-lo do mal, como fez tantas outras vezes.

    A filosofia do mundo, a mais sã, nos diz "bola pra frente". Mas a Sabedoria nos diz que, quando se está diante do abismo, a única maneira de progredir é dar um passo para trás. E Deus nos promete que, enquanto pedirmos, não importa quão perto do abismo, ou mesmo quão mergulhados estejamos nele, Ele vai conceder que retrocedamos, passo por passo.

    Veremos novas todas as coisas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ir à missa