Pilatos era um homem prático. O imperador romano o havia nomeado
governador da Judeia, como consequência de uma vida de dedicação à
carreira pública. Sua missão não era qualquer uma: a dignidade do seu
cargo lhe custou uma transferência para a periferia do império, longe
demais do mundo em que nasceu e pelo qual vivia. Aquela região era
povoada pelo grupo religioso que mais dava trabalho ao imperador, por
recusar-se a cultuá-lo, e era polvilhada por revoltas e crises políticas
internas e externas.
Num belo dia primaveril, Pilatos recebe
em seu palácio as mais importantes autoridades religiosas locais que
lhe entregam um homem inocente. A história é conhecida: o inocente é
Jesus Cristo e aqueles que querem matá-lo são os que ficaram registrados
na historiografia cristã como "os Judeus". Pilatos não quer punir a
Cristo, quanto mais crucificá-lo. O clamor da turba e ameaça de
revolução, todavia, o impelem a fazê-lo. Ele cede. Lava as mãos,
afirma-se inocente, solta um bandido e crucifica Jesus.
Mandará
escrever na cruz, como que para registrar a causa da condenação, "Jesus
Nazareno, Rei dos Judeus". Os Judeus se incomodam, por não reconhecerem
em Jesus o seu rei, mas Pilatos, já tendo feito o que eles queriam,
acha ocasião para resistir e afirma "O que escrevi, escrevi" (Jo 19,
22).
Seja quando cede ante os Judeus, seja quando lhes
resiste, Pilatos nunca retrocede. Ele sabe que retroceder é mostrar
fraqueza, que um bom militar ou governante nunca volta atrás. Esse
raciocínio faz sentido: o pressuposto de retroceder é reconhecer que
deveria ter sido diferente, mas não há espaço para esse tipo de
pensamento durante um conflito. Não há como voltar atrás - data venia, a
merda já está feita - e o caos da situação urge e exige uma resposta
aos novos problemas gerados. Para um homem como Pilatos, peça de um
sistema de poder, não há tempo para arrependimento. Seu lema tem de ser o
cumprimento da missão e nada mais é digno de preocupação.
"Never
apologize, never explain" também explica essa mentalidade. Não serei eu
a dizer que não é ela eficaz. Grandes homens viveram por ela e
conquistaram tudo que havia para ser conquistado debaixo do Céu.
Me
ocorreu hoje de contrapô-la a outra passagem das Escrituras, proferida,
conforme narra São João Evangelista, pelo próprio Cristo: "Eis que faço
nova todas as coisas" (Ap 21, 5).
Frase muito esquisita essa.
Aquilo que a experiência nos aponta indubitavelmente é que o tempo
necessariamente passa, que as coisas mudam e que não há nada que seja
perfeitamente reversível. Se nem os processos físico-químicos mais
elementares não exatamente reversíveis (quando desenferrujamos uma barra
de metal, ainda que ela brilhe como antes, perdeu parte de sua massa no
processo), que dirá os processos biológicos e, com mais razão ainda, os
sociais.
Jesus, no entanto, afirma esse contrassenso. Não
diz nem sequer, o que já seria admirável, "arrumo todas as coisais",
"tapo todos os buracos", nem mesmo "faço como que novas todas as
coisas", mas sim "faço novas todas as coisas". Se parece idiotice
acreditar, maior idiotice seria duvidar d'Aquele que nos deu tantos
motivos tangíveis para crer.
Diferente da visão de mundo dos
homens fortes, que não vê motivos para repensar o passado, Cristo nos
convida a não somente repensá-lo, mas a revivê-lo em nossa memória e,
reconhecendo que deveria ter sido diferente, chorar sobre ele,
implorando que seja apagado.
Para reconhecer que errou, uma
pessoa não necessariamente precisa saber qual era o certo. Pilatos podia
não ver saída para o dilema entre condenar um pobre inocente ou ver sua
província arder em chamas e, devemos admitir, provavelmente não havia
saída que ele pudesse enxergar. Mesmo sabendo disso, todos também
reconhecemos que ele errou. A única solução naquele caso e em muitos dos
nossos seria, talvez, desistir. Desistir de querer ter as soluções,
desistir de tentar ter o controle da situação e reconhecer que Deus
concretamente intervém na história.
Se, ao invés de lavar as
mãos, Pilatos as tivesse erguido em súplica e desistência aos Céus, Deus
teria dado seu jeito de livrá-lo do mal, como fez tantas outras vezes.
A
filosofia do mundo, a mais sã, nos diz "bola pra frente". Mas a
Sabedoria nos diz que, quando se está diante do abismo, a única maneira
de progredir é dar um passo para trás. E Deus nos promete que, enquanto
pedirmos, não importa quão perto do abismo, ou mesmo quão mergulhados
estejamos nele, Ele vai conceder que retrocedamos, passo por passo.
Veremos novas todas as coisas.
domingo, 19 de maio de 2024
Quod scripsi, scripsi (Jo 19, 22) & Ecce nova facio omnia (Ap 21, 5)
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