sexta-feira, 26 de abril de 2024

Nada será como antes.

    Na modernidade líquida, gostaríamos também nós de sermos líquidos. Se, às vezes, pensamos sê-lo em razão de uma pretensa inconformabilidade (recusamo-nos a submetermo-nos a qualquer modelo que seja como um tipo ideal reconhecido), definitivamente não o somos quanto à maleabilidade.

    Isso quer dizer que, diferente de um líquido, que sempre pode ser reformado (ganhar nova forma), nós sofremos impactos permanentes do meio em que estamos, que, necessariamente, deixa alguma marca em nós.

    Qualquer marca que recebamos não é apenas algo que passamos a carregar em nosso exterior, mas, a partir do momento que gera nova experiência, nos coloca em outra perspectiva, ainda que por um só momento, ajudando a construir uma narrativa e moldando também o interior.

    Mesmo que qualquer marca que a vida, os outros, ou nós mesmos pudéssemos deixar fosse apenas exterior, isso não a impediria de agir no sentido de mudar a maneira como se é enxergado e, tanto consequentemente como paralelamente, a maneira como nos enxergamos a nós mesmos.

    "O hábito não faz o monge, mas certamente ajuda". As expectativas sobre nós que são projetadas por outros sobre aquilo que lhes parece que somos e fazemos são, não poucas vezes, uma "self-fulfilled prophecy".

    Se não nos mudamos (de ambiente), é quase impossível que mudemos. Se mudamos de ambiente e, portanto, inevitavelmente sejamos conformados, é inútil pretender que isso jamais aconteceu, buscando em si os mesmos problemas, soluções e motivações de antes.

    Queremos ser líquidos, queremos poder retornar a uma condição anterior a nossa atual, se não para efetivamente começar tudo de novo como se novos fôssemos, ao menos para enxergar no presente o brilho que ele parecia ter quando era futuro.

    Não é possível.

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