sexta-feira, 15 de março de 2024

Quer ser um herói?

    Se olharmos para as vidas de pessoas tão diferentes como Aquiles, São Francisco e Che Guevara, veremos que a vida que levavam era não só autodestrutiva, mas, se bem que edificasse imaterialmente, prejudicava também a vida das pessoas ao seu redor. Immanuel Kant, que dispensa apresentações, quis reestruturar a moral ocidental para além da base crista, que lhe acompanhava já há séculos. Para tal, formulou o conceito de imperativo categórico. Uma de suas características é afirmar o dever de agir somente quando se enxerga naquela ação algo que deveria ser feito por todos. Os nossos heróis, nessa ótica, seriam imorais? Não consigo ver como seria diferente. 

    Claro, é de se questionar se esses "heróis" e seus feitos existem mesmo para além das construções retóricas, mas já tratei disso no texto sobre biografias. Considerando que sim e que, portanto, todas a sua vida consistia em levar a último termo os grandes princípios morais que todos professamos crer: esse comportamento poderia ser repetido por todos? E se sua aplicação como norma geral não é desejável, porque apresentá-los como exemplos? Para usar um exemplo cristão, falo da abstinência sexual que, bem vivida, é definitivamente heroica. Se todos a praticassem, seria o fim do mundo. Naturalmente, já houve autores espirituosos que afirmaram que seria o "mais belo fim do mundo". Sei não.

    Nesse mesmo exemplo, se parece ser o caso que a castidade perfeita não só é algo que não deveria, em última instância, ser levado a sério por todos, há a certeza, dada por Jesus Cristo, que há aqueles que nem sequer podem-na entender (Mt 19, 13). Me parece que heróis servem como um fator de "equilíbrio ecológico". Eles de fato acreditam no que quer que acreditem e sua empolgação impulsiona aqueles fadados à pusilanimidade a dedicarem suas vidas a um ideal que nunca serão capazes de encarnar. As pessoas não-heroicas seriam as engrenagens que, se bem que mantenham o mundo girando, não o fariam se não fosse pela força da corrente, os heróis, dispostos a destruir a si mesmos e a todas as engrenagens por um ideal.

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