A digitalização de tudo trás consigo o risco de nos permitir esquecer que nós jamais poderemos ser digitais.
Nosso corpo é de primata.
Nossa inteligência não processa dados.
Nossas cognição trascende a linguagem.
Nossa vida não é para gerar lucro.
É engraçado ver o ressurgimento de uma noção gnóstica da humanidade, em que é possível dizer que nossa essência é imaterial (alma, inteligência), presa em um corpo mau que nos atrapalha.
O trans humanismo vem para aprimorar esse corpo imprestável, conformando-o a um ideal de perfeição robótico. Além dele, há várias outras visões de mundo que ignoram a inescapável corporalidade do ser humano enquanto um animal. Um animal que fala, sem dúvida, mas que ainda assim está mais próximo dos macacos do que do ChatGPT.
Recomendo fortemente este livro, que trata das experiências de um neurocientista americano que passou 20 anos estudando um único bando de babuínos na Tanzânia.
As narrativas da vida social dos babuínos lembram muito aquelas que ouvimos sobre nossos modernos Estados Democráticos de
Direito.
Será que percebemos a sociedade como se ainda vivêssemos em grupos de 40 indivíduos? Ou ainda vivemos como babuínos mais do que gostaria de admitir?
Achamos a maior graça em ler que os antigos atribuíam os fenômenos naturais a deuses.
Muitos riem dos deuses antropomórficos. É curioso pensar que, em que pese suas cabeças de gavião ou corpos de elefante, os deuses sempre agiam exatamente como humanos, assim como, nas nossas modernas narrativas, os países e instituições.
Nem a agricultura, nem a indústria e nem a internet foram capazes de nos tirar essa tendência de entender o mundo por personalidades metafísicas ou, como se diz hoje, jurídicas, que continuamos tratando como se indivíduos fossem.
Ainda queremos saber se essa tal de ONU é confiável ou não, se o Estado Brasileiro é forte ou fraco, ou sobre o que a China deveria fazer em relação à fome.
Muitos de nós continuam pensando problemas globais em termos que fariam sentido para um babuíno da savana.
No final das contas, antropomorfizar continua sendo a nossa melhor ferramenta para coordenarmos grupos humanos cada vez maiores.
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