É curioso pensar que Jesus não diz, como muitos de nós preferiríamos, "não façais inimigos", mas implica que, ainda que vivamos pacificamente segundo Seu exemplo, teremos inimigos.
Naturalmente, qualquer convicção - das quais não podemos escapar - é a negação, ainda que somente em foro íntimo, de todas as outras possibilidades de visão de mundo.
As inimizades, com efeito, se alimentam da oposição entre ideias, entendendo que elas devem ser transferidas para as relações sociais, de modo a opôr o inimigo a outro inimigo, de modo que o bem de um passa a ser o mal de outro e a vida de um, em suas últimas consequências, a morte do outro.
O convite-ordem de Jesus, nesse contexto, não é que neguemos a existência dos inimigos: se tentássemos fazê-lo, eles mesmos seriam capazes de nos lembrar que, sim, nos odeiam, e que, sim, querem o nosso mal.
O mandamento de "amar os inimigos", assim, é de romper com a própria lógica da inimizade, reconhecendo que, ainda que alguém se entenda como nosso inimigo, nenhuma palavra ou mesmo ação que daí nasça é capaz de mudar a realidade fundamental da nossa humanidade: como imagem de Deus, devemos amar e merecemos ser amados.
Sendo assim, o mandamento de amar os inimigos não se confunde, de maneira alguma, com acolher todas as opiniões.
Pelo contrário, pressupõe que muitas opiniões, quais sejam aquelas que contam com a possibilidade de que o bem de um humano seja o mal de outro, deverão ser simplesmente desconsideradas, face à verdade fundamental de que todos nós somos iguais em nossa natureza e, como tal, devemos fazer o bem para os outros.
Não há, nessa lógica, palavra, ato, crime, opinião, auto identificação ou o que quer que seja que torne possível retirar alguém do ciclo de amor que deve reger a humanidade.
Muitos, ao longo da história, acusam o Evangelho de ser uma doutrina para fracos, justamente pelo tratamento que Jesus prescreve mesmo aos inimigos.
Afinal, oferecer a outra face quando se recebe uma bofetada é a garantia do fracasso individual e, para muitos, até mesmo uma injustiça contra toda a ordem social. Entretanto, Jesus mostra que o fracasso individual não é o fim da história: depois mesmo da morte do corpo, vem a Ressurreição que o glorifica e lhe dá força eterna.
O cristão consente com a injustiça para consigo mesmo porque sabe que Deus sempre dará a última palavra e que Sua justiça é muito mais sábia para retribuir o mal do que aquela justiça que fazemos com nossas próprias mãos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário