sexta-feira, 14 de março de 2025

A "Vida Comum"

 "A coisa mais extraordinário do mundo é um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns" - disse G. K Chesterton, o chamado filósofo do senso - pasme - comum.

    Desde idos de 2020, essa ideia tem sido cooptada por um movimento de pessoas que, indiscutivelmente, vivem vidas um tanto diferentes daquela admirada pelo autor. Diferentes, sim, tão diferentes quanto o são uma tartaruga do mar e uma tartaruga das nossas estradas.

    Explico-me: o homem comum a que Chesterton faz referência é aquele que, na sua simplicidade, é como os lírios do campo, que nunca sequer cogitaram a possibilidade de ser alguma outra coisa. Assim o são as pessoas que cresceram num mundo em que o diferente era distante demais para ser visto como uma possibilidade. O possível de se ser era, como sempre é, somente aquilo conhecido, que se resumia à cultura da família estendida que eram as pequenas cidades. Pergunte ao velhinho mais velhinho que você encontrar porque ele nunca fez tatuagem e você vai ter uma boa noção do que é algo sequer ser uma possibilidade para alguém.

    Assim eram, para a maioria de nossos ancestrais rurais, todas aqueles aspectos da vida que nós chamamos de escolhas, mas que, para eles, era pura e simplesmente a vida: casar-se, comprar uma casa, ter filhos, ir à igreja, comer arroz com feijão... Foi só com as intensas mudanças do século XX, que trouxeram o estranho para a nossa vizinhança, que passamos a poder crer que, no anonimato das grandes cidades, a nossa vida era realmente nossa e que podemos fazer dela o que bem entendermos. Não vivemos mais, desde então, num mundo em que herdamos o modo de ser, mas temos de, necessariamente, construí-lo.

Assim como Adão e Eva, comendo o fruto proibido, nunca mais puderam deixar de enxergar sua nudez, também nós não podemos recuperar a pureza de nossos ancestrais em enxergar um mundo que não é construído por mãos humanas, mas, sim, herdado de Deus.

    É esse contexto que impede, por mais que lutemos eu e você, urbano leitor, que vivamos como nossos antepassados. Ainda que tentemos imitar suas roupas, seus trejeitos, sua arquitetura e suas ideias, o elo da tradição foi rompido. Irremediavelmente.

    Seus bisavós nunca tiveram de escolher a vida que levaram, nunca sequer cogitaram que sua cultura (seu modo de ser) fosse, como é, fruto de mãos humanas, e que o que pode ser feito por homens, por homens pode ser desfeito. Desde que eles viveram a vida que muitos tentam imitar, o homem já aprendeu que pode apagar um casamento, marretar altares e enfiar o que quiser onde quiser quando quiser. Não há como desver.

    Há uma lenda segundo a qual certa tribo de índios não se permitia ser fotografada por um antropólogo, por acredita que a foto revelada lhes roubaria a alma, prendendo-a no papel. Eu mesmo já conheci monges tanzanianos que preservam esse tradicionalíssimo medo da fotografia. Afinal de contas, qualquer representação gráfica é, de fato, algo terrível, na medida em que se parece com você e nas medidas e condições certas, facilmente se passaria por você. Mas não é você. Do mesmo jeito, as representações discursivas também são capazes de aproximações espantosas, mas que não devem, se prezamos pela sabedoria e pela sanidade, serem confundidas, com aquilo que descrevem.

    Hoje, confunde-se a vida tradicional com o falar da vida tradicional, ignorando, de novo, que essa consciência do próprio modo de ser, obtida por contraposição a outros modos de ser conhecidos e combatidos e que, ainda por cima, visa o marketing de si próprio, é algo que jamais se poderia chamar de tradicional.

    Lembrei agora de como muito da tradição cristã tem certo receio em relação a representações. Fala-se de evitar a estima dos outros, nascida da *imagem* que eles tem de nós, assim como de se preocupar com ela. Fala-se de evitar a consideração da si próprio. De tomar cuidado com as representações (discursos) que os homens fazem de Deus, ainda que com boa intenção, pois podem estar "pintando-o" mal. Fala-se de como imagens mentais, em muitos casos, são causa de distrações. E estimula-se o silêncio, a simplicidade.


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