sábado, 29 de março de 2025

"Pra frente é que se anda"?

A primeira vez que concebi esse texto foi quando, em dezembro do ano passado, precisava passar por uma trilha de 300m para ir e para voltar de cada uma das refeições do dia. Nessa época, eu estava em missão nas região da terra dos Munduruku, de quem só sabia que, historicamente e muito devidamente, receberam a alcunha de "cortadores de cabeça". Buscando material para conhecer sua cultura, me deparei com uma afirmação que me soaria de todo preconceituosa se não viesse de um famoso escritor que é Munduruku ele próprio: "meu povo não pensa no futuro".

Estranho, não? Pensar no futuro parece a nós todos algo não só óbvio e simples, mas verdadeiramente uma necessidade, uma condição "sine qua non" para viver uma boa vida. No entanto, nem os Munduruku do passado, que viviam para cortar cabeças, e nem os de hoje, ameaçados pelo garimpo ilegal, pensam no futuro. Não por displicência, mas por sequer conceber a ideia de que existe hoje um depois.

Para exemplificar isso, o autor cita o exemplo de um antropólogo que, tendo passado meses na tribo e chegada a hora de despedir-se, viu os indígenas todos tomados da mais profunda comoção. Ele, para consolá-los, disse o que qualquer um de nós diria, disse que depois voltava. Mas para os Munduruku, não existe depois. Voltar depois não é, portanto, diferente de não voltar.

Pensei no óbvio: eles não conseguem pensar no futuro porque não tem palavra para futuro. Nós temos. Mas por que, caro leitor, temos palavras para futuro e eles não? 

Durante as várias idas e vindas pela mata, deduzi que eles não precisam do futuro como nossos ancestrais indo-europeus precisavam. Explico-me: nós desenvolvemos palavras para, dentre outros motivos, separar aquilo que vemos em recortes que nos servem. Se determinado recorte não nos serve, não o temos nas nossas línguas.

Um mateiro conhece centenas de nomes de árvore porque saber a utilidade de cada uma pode ser a diferença entre a vida e a morte. Para o ser urbano, no entanto, tudo é apenas "árvore" ou, pior ainda, "mato", apenas um empecilho para o progresso.

Se você já fez trilha, com certeza já percebeu que é um pouco difícil e até imprudente olhar para frente. O terreno é irregular e, a todo momento, temos raízes, galhos, buracos, espinhos, charcos, lamaçais e, quem sabe, até animais perigosos. Ainda que você tente e consiga olhar para frente no meio da floresta, perceberá que não há muita frente para se olhar. A visibilidade na mata dificilmente passa dos 5m.

Além disso, a natureza é muito menos marcada pela sazonalidade do clima. Ao longo do ano, mantém-se a chuva forte e frequente, o calor intenso, o curso dos rios e o verde das árvores. Não há como conservar alimentos por muito tempo, haja vista que a proliferação de bactérias e fungo é favorecida pelo calor e pela umidade. A qualquer época do ano, há pesca, caça e frutos das árvores.

E no "habitat" dos indo-europeus? A vastidão das planíceis, desertos e ambientes montanhosos, a vegetação esparsa e baixa, as quatro estações muito bem definidas. Fisicamente, é possível olhar para frente, para centenas e até milhares de quilômetros à frente. Economicamente, é absolutamente necessário olhar para a frente (que lembra o inglês "to look forward - esperar, antecipar-se): se você não planta agora, não come depois. O frio da próxima estação pode acabar com sua colheita e, consequentemente, com sua vida. É não só possível, mas necessário, estocar alimentos, domesticar animais, realizar grandes migrações. Todo esse contexto exige que se pense em futuro. Deixar de levar em consideração aquilo que não aconteceu, mas vai/pode/deve acontecer é a diferença entre a vida e a morte.

No final das contas, o certo é que não existe futuro.

Inventamo-lo, apenas, para conseguir resolver problemas que existem: fome, sede, morte. Não á toa, com as doses certas de fome, sede e morte, mesmo qualquer um de nós se esquece completamente do futuro, porque futuro não dói. O alívio da dor que dói agora vale mais do que a consideração de algo que não existe senão enquanto o consideramos.

O contrário também é verdadeiro: a abundância de bens, o conforto e o ócio facilmente nos prendem em pensamentos tortuosos sobre conceitos abstratos. Nós, ocidentais muito bem acomodados pelo nosso sistema econômico e social, somos a civilização mais doente mentalmente de que se tem notícia. A mais suicida, a mais ansiosa. Nós precisamos de "sarna pra nos coçar". A dor, o incômodo, a fome, a sede e a morte nos prendem naquilo que realmente existe: o agora.

Antes, convivíamos com todos esses fatores diariamente, fôssemos indígenas ou indo-europeus. Quando mais conseguimos afastar tudo isso de nós, mais desenvolvemos vocabulário e instituições para conceber, ainda no conforto, alguma sarna que nos coçasse. 

Coçar-se é sentir-se vivo. Mas coçar-se com sarna imaginária e cercar-se de inimigos invisíveis é burrice. 

Pessoas inteligentes, saudáveis e felizes abraçam a fome e a sede, chamando-a jejum. Abraçam o incômodo e chamam-no penitência. Abraçam a morte e chamam-na esmola.


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