sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Imortalidade

     Ouvi falar de uma monja. Disseram-me que estava com Alzheimer e câncer, sinais da sua própria decadência e iminente partida para a tumba.

    Eu vi essa monja. Não havia decadência alguma naquela mulher. Naquele corpo envelhecido, o olhar brilhante guardava a certeza da eternidade, mas não só de uma eternidade que sucedesse a vida terrena: ali mesmo, atrás daquelas grades e na absoluta irrelevância da sua vida reclusa, silente e solitária, após cinco décadas sem sair de uma chácara numa cidade satélite de um país de terceiro mundo, ela já vivia a eternidade.

A dedicação exclusiva em olhar para si e para o sacrário deu-lhe um coração que o mundo não pode conter.

    Enganava-se quem pensasse que era uma muleta que ela segurava enquanto conversava. Pela dignidade com que segurava aquela haste de metal, tive a certeza de que não poderia ser uma muleta: era, isso sim, um cetro, com o qual ela, junto a seu Esposo, subjugava o mundo inteiro.

    “Ó morte, onde está tua vitória?”

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ir à missa