Na Ladainha de Todos os Santos, uma das mais solenes orações da tradição católica latina, roga-se ao Senhor que nos livre da “morte repentina e inesperada”, apresentando-a como um mal comparável à peste, à fome, à guerra e à própria ira divina. Por quê?
É possível afirmar que, com uma objetividade característica de muito da teologia, tanto faz como se deu a morte de um indíviduo, que o que realmente importa é se ele, em vida, quis tomar parte na Salvação que Jesus nos mereceu. Ser um herói de guerra que se jogou na granada ou um afogado no rio numa tarde de domingo não deveria significar nada muito importante. Morrer por acidente seria um mero acidente, “coisas da vida”.
Acontece, no entanto, que a morte acidental é sempre escandalosa, na medida em que é manifestação da quebra das narrativas que nos fazem viver. A perda de todos os bens materiais, a perda mesmo da saúde e até da própria vida não é nada comparada a perda do sentido, da percepção de que há uma razão.
Não esmorecer face à tortura e o desmembramento pode ser enxergado como ato heróico e morrer após isso pode ser o triunfo final de uma luta entre o bem eterno sobre o mal mundano. A doença pode ser uma punição (ainda que por não termos cuidado da saúde). Mas num acidente estúpido de moto, não há bem ou mal envolvidos.
Não há heroísmo algum possível em ser arremessado e bater a cabeça numa mureta porque alguém descuidou de olhar o retrovisor. Não havia anjos ou diabos ali para impedir ou causar nada, não houve luta, não houve entrega, não houve sacrifício ou bravura, ou mesmo algum mal moral que justificasse tudo isso como um castigo.
Na morte por acidente, o homem é privado de sentido. A sua vida, de repente, não pode mais ser enxergada como uma jornada: ele morreu sem ter chegado a lugar algum. Morreu no meio de todos os seus sonhos. Sua morte não inspira, apenas assusta. Assusta com a crua, dura e tremendamente verdadeira noção de que hoje estamos aqui e, sem cerimônia alguma, amanhã podemos não estar.
A subitanea et improvisa morte, libera nos, Domine!
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