Essas formigas estão o dia inteiro tentando passar essa mosca por detrás do espelho do interruptor.
Me admira que estejam trabalhando, arduamente, em equipe, ininterruptamente, num missão sem a menor possibilidade de sucesso e, no entanto, tampouco esmorecem!
O que tanto motiva essas formigas? Cheguei a perguntar-lhes, mas não obtive resposta.
Motivação parece ser uma invenção nossa. Os macacos fazem cafuné, as aranhas tecem teias, as calopsitas cantam e saltitam e nenhum deles parece sentir a menor falta de um porquê.
Inventar (do latim invenire, encontrar) o porquê das coisas nos deu, é verdade, grande poder. Poder de subjugar os outros macacos, escravizar as vacas e prender passarinhos em gaiolas.
Além, é claro, poder de fazer gaiolas, máquinas de fazer gaiolas, indústrias de gaiolas e Estados-nação para cobrar impostos sobre as gaiolas e regulamentar os passarinhos. Pregar sobre passarinhos, também.
Acontece que, se quem tem as explicações tem o poder, não é verdade que tem o poder tem as explicações.
Ganhamos, em todos os níveis, poder, poder muito visível, muito tangível, muito poderoso. Mas perdemos de vista os porquês. Talvez ninguém nunca os tenha visto, talvez sejam todos só um sonho…
De repente, sem porquês, o poder perde a graça. Nem as mais elementares manifestações de vida sequer nos parecem possíveis. Para quê?
Todo o resto da natureza, que nos precedeu e nos sucederá, é indiferente às nossas palavras motivacionais e se resigna a fazer, com todas as forças, o único possível: ser o que se é.
“As aranhas não tecem sua teias por orgulho ou por paixão / Se o sangue ainda corre nas veias, é por pura falta de opção.”
É nessa falta de opção abraçada, nesse abandono desamparado à própria condição, na ignorância inescapável de o que quer que seja história, auto-consciência e planejamento, que vivem os seres menos angustiados deste planeta.
Essas formigas da foto nunca vão construir um arranha-céu, mas também nunca vão se jogar dele. E, na sua formiguice, podem deixar algo bonito de se ver para a posteridade. Talvez inspirem outro jovem.
Quem diria! Talvez tenhamos de aprender a viver com os seres vivos…
Muito bom! Sabe um ser vivo muito interessante também? O babuíno. Que tal um texto sobre os incríveis babuínos?
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