“Seja o seu 'sim', 'sim', e o seu 'não', 'não'; o que passar disso vem do Maligno” Mt 5, 37
Poder é poder decidir o que será feito. Quanto mais poderoso sou, mais minhas decisões afetam o que quer que seja.
Pilatos era um homem bem poderoso e, governante que era, suas decisões impactavam diretamente a vida - e a morte - de umas centenas de milhares de pessoas. Que Jesus Cristo foi apresentado a ele num belo dia de expediente todos o sabem, assim como não é novidade que ele escolheu se omitir, lavando as mãos, fingindo não saber que a omissão também é uma ação.
Que decisão você tomaria, meu leitor? O tempo está passando, a multidão à sua porta está clamando por sangue e ameaçando uma revolução. Você tem mulher e filhos em casa te esperando e sabe que uma revolução nesse contexto significaria que milhares de filhos perderiam os pais, milhares de mulheres seriam reduzidas à miséria e tudo que seus olhos podem ver viraria história. Você tem à sua frente um homem inocente, não quer condená-lo. Mas você foi militar, já presenciou um bom número de homens que só estavam fazendo seu trabalho morrendo. Provavelmente, foi a causa da morte de muitos desses homens, esmagando sonhos e crânios com o glorioso estandarte da República Romana.
Você faz com que morra aquele judeu inconveniente, já machucado e odiado pelo povo de tal maneira que dificilmente sobreviveria de qualquer jeito? Você o protege e aceita o banho de sangue que vai cobrir a sua terra pelas próximas semanas, condenando à morte violenta outras tantas pessoas muito menos controversas? O imperador e todo o povo romano confia em você.
Apesar de todos os motivos que pudesse ter, o consenso é de que, no final das contas, Pilatos vestiu a camisa do time do Satanás e fez algo mil vezes execrável. Mas qual era a outra opção? Como ser um governador de província romano cristão, no melhor estilo “qualquer um pode ser santo?”
Onde houver responsabilidade, haverá poder e onde houver poder, alguém, mesmo quando desejar, do fundo do coração, jogar tudo pro alto, vai ter de decidir. Estou de acordo com Cristo, quando Ele fala que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”. O rico, para ser rico e por ser rico, tem de gerenciar pessoas e processos, tem de formular sistemas e administrar recursos. Não tem como ser rico, ou um grande gerente, ou um alto oficial, e, ao mesmo tempo, seguir plenamente a lógica simples do “sim é sim, não é não”.
À simplicidade de coração, contrapõe-se a complexidade das nossas instituições que fica cada cada vez mais evidente, emaranhando o que outrora foi bem e mal numa teia social em que somos, vivemos e existimos. Sem essa complexidade, no entanto, não haveria a nossa sociedade. Aliás, não haveria sociedade alguma. Todas essas elaborações que usamos para justificar grandes decisões podem até nos consolar, mas que não convencem uma alma simples de coração, cujo sim realmente é um sim e cujo não realmente é um não. Quem quiser ser coerente, de verdade, vai ter de fugir pro deserto.
O ouro - todo ouro - está sempre manchado de sangue.
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