segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Quaeritur (de algum dia de outubro de 2022)


    Da minha conversa com o Vitor, descrevo resumidamente o que ele explicou: A vida religiosa, em si mesma, é excelente. Porém, o voto de obediência é problemático em tempos de modernismo. Mesmo que uma ordem hoje seja ortodoxa e devotíssima, pode ser que no futuro venha a ter uma intervenção que mude o superior, e agora você estaria obrigado a não só obedecer, mas se conformar a um homem infiel à doutrina católica.

     Além do mais, isso não é só uma conjectura: basta ver o que aconteceu aos Franciscanos da Imaculada. Os padres atenderam muitos egressos de lá com verdadeiras doenças psicológicas, resultado desse conflito entre seu voto de obediência de outrora e as ordens que agora eram emanadas. Não só isso, mas vejamos que, por ocasião da dispersão dos membros ortodoxos, estes tiveram que retornar, depois de anos, décadas de convento, à vida secular, sem nenhum emprego, formação e até mesmo sem família que os acolhesse. “E então” - disse Vitor - “o que um homem desse faz? Vai mendigar na rua?”. Por causa disso, meu interlocutor, saindo da casa de formação e considerando se não poderia entrar em alguma casa religiosa, ouviu do padre Pasquotto que ele jamais poderia aprovar essa decisão, por prudência de não se responsabilizar por algo que tem enormes chances de dar muito errado. O egresso pode, com efeito, facilmente perder até a Fé. Pode-se, por outro lado, viver uma vida santa em família. O próprio Vitor disse que, se um filho seu quisesse ser religioso, não lhe daria nenhum apoio e o desestimularia tanto quanto lhe fosse possível. “Se quer servir a Deus de modo mais perfeito, vá ser padre”. 

    Saber que esse é o posicionamento oficial na capela explicou-me bastantes coisas, como o porquê de nunca se falar de vida religiosa e de como não houve um único jovem “de lá” que entrasse numa congregação, bem como porque o padre Pasquotto sempre foi escorregadio quando tratando desse tema comigo, mas já falou, isso sim, de casamento e vida em família. Parece que encaminhar todo mundo para a vida matrimonial é um excelente mecanismo de se livrar de muitos problemas que acompanham a vida religiosa: picuinhas, jovens esquisitos, ideias esdrúxulas, exageros, afastamento do “razoável”, questões jurídicas com a diocese e com a Santa Sé, custos adicionais e mais preocupações de formação e acompanhamento. Não que os casados estejam largados, mas é fato de que, e essa parece ser a opinião dos padres, a vida católica no mundo força as pessoas a criarem bom senso. A reclusa, não. Casar, criar os filhos, é uma maneira de ter certa garantia de que você não vai se afastar muito desse “bom senso” que, confesso, já me pareceu ser mais uma coisa do pensamento do padre Pasquotto do que algo que realmente exista.      

    Sinceramente, sou inclinado a concordar com tudo isso. Eu vi com meus próprios olhos o fracasso de muitas “vocações”, tanto em meio tradicional como não. E meu medo sempre foi ser um deles. Nunca quis ser um “ex”, um homem de 25 anos largado no mundo, magro, inexperiente e inapto para o trabalho moderno e o estudo numa faculdade, já ficando velho para casar. Eu vi os esquisitos e as esquisitices que parecem ser indissociáveis, se não das casas religiosas, de muitos que se candidatam a elas. Eu mesmo cheguei a conclusão de que um mosteiro é um excelente lugar para dar errado, nem que seja pelo fato de que, tendo ofendido  a esposa, você simplesmente não pode dormir, mas, brigado com Jesus Cristo, você pode continuar “rezando sua missa” todos os dias. 

    Mosteiros, me parece, podem ser lugares bem acomodantes, na medida em que não há o estímulo inescapável de bebês chorando, uma esposa magoada, um trabalho urgente e amigos perdendo a fé. Se não fosse assim, se fosse realmente e intrinsecamente um lugar que leva não só para a salvação, mas para os cumes da perfeição, por que é que os meus olhos e os de toda a humanidade são testemunha do contrário? Se a gente deveria fugir do mundo para garantir o Céu, por que é que o caminho do Inferno parece forrado de hábitos de todos os tipos? O que mais me justifica essa desconfiança da religião é o exemplo de São João da Cruz, que era, bem, simplesmente São João da Cruz, o que não o impediu de ser quase expulso de sua própria ordem pouco antes de morrer. In a lifetime, a ordem carmelita descalça já tinha se corrompido nesse nível. Se o sistema, e por sistema eu me refiro às regras das comunidades, de fato funcionam, por que é que existem inumeráveis? Por que tantos e tantos exemplos por toda a história de comunidades inteiras afogadas, quando não em vícios humanamente horrendos, em tibieza? 

    Mesmo com todo essa corrupção, que com toda a certeza superabundava no tempo  de Santo Tomás talvez até mais que hoje, o santo vem e me diz:

“Wherefore St. Thomas says that the vocation of God to a more perfect life ought to be followed as promptly as possible. In his summary he proposes the question, whether it is praiseworthy to enter religion without having asked the counsel of many, and without long deliberation? He answers in the affirmative saying that counsel and deliberation are necessary in doubtful things, but not in this matter which is certainly good.” 

    E quem me deu essa informação não foi ninguém menos que outro doutor da Igreja, Santo Afonso. Vejo eu o exemplo do próprio Santo Tomás, fugindo de casa com todo o vigor para se tornar membro de uma congregação recém fundada. Por acaso não teria ele considerado os perigos que poderia vir a correr, ou que “poderia muito bem viver uma vida santa no matrimônio”. Mesmo que não lhe fosse proposta essa alternativa, que inclusive Santo Afonso condena veementemente quando dada em resposta a um candidato à religião, por que é que ele não se tornava, já que queria ser religioso, um membro da muitíssimo mais respeitada, antiga e estável ordem beneditina? Esse comportamento dele, pergunto, foi fruto do “bom senso”? E o de São Geraldo Majella? E o do santo, cujo nome não me lembro, que se diz que pisou na própria mãe, quando esta ficou no caminho para bloquear-lhe o abandono do mundo? Santo Inácio abandonando para sempre sua família, descuidando de todo e qualquer cuidado com o corpo, indo morar numa caverna, teria ele sido aprovado pelo padre Pasquotto? E São Pacômio, indo atrás de um velho eremita e a ele se submetendo inteiramente?  E Santa Marina, se passando por homem a vida inteira a fim de viver num mosteiro? Nem que seja São Luis e Santa Zélia, que, ao que me lembro, casaram com poucos meses de namoro. 

    Seriam os naturalmente grandes atos de todos os santos não são só, como disse o mesmo padre dos de Santa Rosa de Lima, “mais admiráveis do que imitáveis”, de modo que tirássemos de nossas pretensões realizar tamanhos e tão absurdos atos de confiança na Providência? O “bom senso” de uma vida numa grande cidade e em família, com emprego e faculdade, como parece ser o modo de vida predileto dos padres (na medida em que desestimulam os fiéis do oposto), parece, de fato, excelente para não se desviar muito de uma certa ortodoxia e de uma vida suficientemente devota. Mas me parece que um Santo Tomás, um Santo Afonso, um São Francisco Xavier, morreriam antes de aceitar vivê-lo. Pela história da Igreja, me parece improvável que haverá qualquer grande restauração da Tradição sem que seja por meio de religiosos botando fogo no mundo, como foi com os mendicantes e depois com os jesuítas. Mas, para fazer grandes coisas, e elas tem de ser feitas, é necessário correr grandes riscos. A distância de um abraço redentor é a mesma de uma facada. 

    O que seria de um Santo Inácio de Loyola e do mundo, se ele chegasse às portas do Céu como Inigo López, homem respeitável e centrado, que, sem deixar de lado suas devoções, teve uma linda esposa e sete filhinhos bem catequizados? Parece que Santo Afonso nos faria ter sinceras dúvidas de que ele, podendo ser quem foi e tendo casado, chegaria ao Paraíso de fato. Veja, eu não tenho dúvidas de que é plenamente possível ser um grande santo na vida em família. Mas quem me faz desconfiar dessa frase quando em detrimento da opção pela vida religiosa não é um velho na internet, mas Santo Afonso! Quem me ensina a fugir de casa, dar tudo que tenho aos pobres, vestir um saco de batata, morar na rua e dizer a meu pai “meu único pai é Deus” não é um hippie, mas São Francisco! Quem preferia ser torturado e encarcerado pela própria família a, não casar, mas simplesmente se tornar monge numa ordem menos vantajosa à época, é Santo Tomás! 

    E eu, vendo essa radicalidade, essa falta de conformação ao que mesmo os mais pios membros da sociedade recomendavam, na vida e no ensinamento de praticamente todos os cristãos cujo exemplo a Igreja me propõe, vou fazer o que? Esperar as circunstâncias perfeitas ou agir como todos os santos a quem não só admiro, mas cujo exemplo pretendo sinceramente seguir? “Se estes e estas puderam”, nas circunstâncias as mais diversas e adversas, “por que não eu?” De verdade: por que não eu? Aliás, se o impedimento fosse somente a mim, tudo bem. Mas porque parece que todos, sem nenhuma exceção em dez anos de apostolado, são lenta e eficazmente dissuadidos? Eu não consigo harmonizar minha sincera e, até onde posso afirmar, devota vontade de servir a Deus como esses santos fizeram aliados com a plena possibilidade que aparentemente eu tenho de fazê-lo com o opção de ser enterrado engravatado após uma longa vida de serviço público, mesmo que devota. 

    Veja, eu não estou querendo entrar num seminário no Vale do Paraíba. Eu quero entrar numa ordem tradicional com boas relações com a Santa Sé. Mas se nem isso, eu posso ter, será que não posso viver como um religioso, sem o “perigoso” voto de obediência, e buscar ser instrumento da Providência sem pensar muito no futuro? Que um padre me acompanhe, então, e me dirija nesse processo! Não é isso segurança suficiente? O outro Inácio, de Loyola, achava que era. Se o caminho que os santos em todas as épocas trilharam não é mais seguro, por qualquer circunstância que seja, o que é seguro? E a mim mesmo, confesso, ele não parece seguro sempre. Às vezes, sinto que devo me conformar a esse “bom senso” de modo de levar a vida, mesmo que seja a vida católica. 

    Que os santos, ultimamente, fizeram loucuras, coisas que jamais me seriam recomendadas ou aprovadas por um "padre bem formado", é evidente. Poderia aceitar isso e aceitar que são excessos mesmo, "mais admiráveis do que imitáveis". Mas então, sinto que eu não seria mais católico. Concluo com um pensamento que me veio à mente quando lendo uma hagiografia: quem faz uma loucura, mostra, que seja, que está apaixonado. E quem não foge do previsto mostra o quê?

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