segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Da insensibilidade humana à verdade

pensamento cristão tradicional hegemônico condiciona a vida feliz à adesão à verdade (como descendente da filosofia grega que é), diz que Deus é a Verdade e que essa adesão se dá por meio da profissão formal e pública de uma série de proposições de ordem teológica. Se um indivíduo vem a discordar de uma só proposição imposta pelo corpo eclesiástico, ele é um herege, logo, pecador e, por consequência, nunca vai ser feliz, nem nessa vida e muito menos na outra. Afinal, como ele poderia ser feliz se escolheu rejeitar a Sã Doutrina, afastando-se do seio da Madre Igreja, do qual, pelos méritos de Jesus Cristo na Cruz, jorra graça e salvação para o mundo? Pode-se fazer ascese, obras de caridade, frequentar a liturgia, ler os santos e doutores todos: se há discordância com a ortodoxia sobre quantas vontades ou naturezas Cristo tem, por exemplo, é melhor já ir desistindo da salvação eterna.


Essa lógica parte do princípio de que, para o pleno desenvolvimento humano, há uma necessidade imprescindível em conseguir destrinchar a realidade em proposições côngruas ao que, de fato, é. Não à toa, não havia distinção entre cientistas e filósofos/teólogos durante a antiguidade e a Idade Média, eram todos buscadores da verdade das coisas que era tanto física quanto metafísica. Passado o tempo, dividiram-se e, em parte, pareceram opôrem-se. Do presunçosos teólogos com sua pretensa ortodoxia e consequente vida virtuosa, herdam alguns cientistas d’antanho e de hoje o semelhante orgulho iluminista em, diferente dos religiosos, “conhecerem a verdade” e, portanto, poderem ser livres e verdadeiramente felizes, sem as amarras do dogmatismo. O mesmo espírito anima ambas as partes e, se hoje temos catedrais, vacinas, instituições e aviões, devemos aos esforços de homens com esse tipo de pensamento, pregadores solitários da verdade luminosa à turba trevosa e ignara. 


Um desses grupos de pregadores no período da Contrarreforma eram os jesuítas, homens celibatários abnegados que dedicavam mais de uma década de suas juventudes a estudos intensíssimos e dentre os quais figuraram as maiores inteligências que o mundo já viu. Decoravam livros inteiros em línguas antigas sem nenhum assombro e citariam de cor centenas de autores. Como já é de conhecimento do leitor, foram os jesuítas incubidos com a missão de catequizar o Novo Mundo e o Extremo Oriente. Quanto ao trabalho dos jesuítas no Brasil e da teologia e práxis contrarreformistas inspirada por eles, é necessário afirmar com Oswald de Andrade “nunca fomos catequizados: fizemos foi Carnaval”.


Contra o mito do país católico apóstolico romano que grupos conservadores tentam nos vender, basta o bom senso de olhar para o passado e procurar nos interiores de que o Brasil quase completamente se constituía qualquer semelhança com o que é ensinado na teologia tridentina. Se nos interiores graçava (e até hoje graça) uma prática religiosa analfabeta imiscuída com toda espécie de superstição e crendice, nas capitais havia um clero indissociável do poder público filo-maçônico e no mínimo indiferente a todos os excessos dos poderosos. Cada qual a seu jeito, ninguém poderia ligar menos para esquemas proposicionais de teologia, não como se disso dependesse a salvação da própria alma (como a doutrina romana afirma).


O filme “Silêncio” (1971) de Masahiro Shinoda também retrata o contato entre jesuítas e seu pensamento proposicional tridentino com camponeses nipônicos iletrados. Aos esforços missionários dos jesuítas, contrapunha-se a mão de ferro do governo japonês, impiedoso e sem o menor escrúpulo de torturar e matar com mortes horríveis aqueles de seu próprio povo que se deixassem contaminar com essa doutrina ocidental que vinha do mar e que, na sua visão, ameaçava a soberania nacional. No final do filme, um governador provincial japonês traz à sua presença um padre jesuíta e, no intuito de fazê-lo apostatar, apresenta-o a outro padre jesuíta que, abandonadas a Fé e a batina após 20 anos de apostolado, fez-se nobre japonês. O apóstata argumenta: “esse país é como um pântano, em que a nossa Fé não pode prosperar. Demorei a perceber, mas, embora recebam os nossos sacramentos e ouçam nossa pregação, o povo daqui não adora o nosso Deus: em seus corações, adoram os mesmos demônios que antes”. Já que era assim, de nada valia seu sofrimento: morriam, mas não morriam pelo Deus aristotélico-tomista, “o único verdadeiro”, que os jesuítas vieram pregar. Na verdade, graças às suas contingências culturais, jamais seriam capazes de compreender o Deus tridentino, não mais do que o jesuíta poderia compreender um pai de santo.


É necessário constatar que a preocupação com a verdade enquanto proposições existe somente para um recorte extremamente limitado das sociedades. Para a imensa maioria das pessoas (basta sair da internet um pouco e falar com gente da rua para constatar) é absolutamente inconcebível que indagações filosóficas, teológicas ou científicas tenham qualquer relevância além de comprar briga no almoço de domingo. Se o homem veio do barro ou do macaco, seu Jorge vai continuar tomando cachaça toda quinta à noite. Tanto faz que o Sol gire ao redor da Terra ou não, vou continuar usando boné. Pouco importa que o Vaticano reconheça que Santo Expedito nunca existiu: a novena dele vai continuar nos apostolados de oração. 


O mundo globalizado deixa isso bem claro, quando nos obriga a olhar ao redor e ser absolutamente incapazes de descobrir no que crê (no sentido de professar) uma pessoa a não ser que ela diga. Comunistas e católicos pegam o mesmo metrô para ir ao mesmo prédio assistir a mesma série na TV. Espíritas e ateus usam as mesmas roupas, comem as mesmas comidas e vivem vidas praticamente idênticas. Mas isso tudo não é característica do mundo moderno, sempre foi assim. Monges budistas, cristãos e pagãos estruturam suas vidas com semelhanças surpreendentes para quem tem visões de mundo absolutamente incongruentes e inconciliáveis. Camponeses sempre foram e serão camponeses, à revelia de qualquer bandeira que se finque sobre sua terra. Rebeldes irão se rebelar, independentemente da causa ou mesmo sem nenhuma.


A crise do mundo moderno só atinge os contaminados pelos frustração dos pregadores ao verem que aquilo que pretendiam ser “A Verdade” é apenas uma arbitrariedade repleta de contingências culturais e materiais. Nas cabeças brancas em casas de madeira nas curvas dos rios, que nunca conheceram essa noção, o mundo continua como sempre foi há milhares de anos.


Mesmo nos meios em que se afirma a busca d”A Verdade”, é necessário reconhecer que o que a quase totalidade das pessoas busca mesmo é a coesão, independentemente da coerência para com aquilo que os dados indiquem. Verdades teológicas só interessam ao povo, do qual somos parte, se vierem acompanhadas de festa na paróquia, para comer, beber, cantar e dançar junto. E onde tiver comida, bebida, canto e dança comunitários, frequentes e honestos, nós vamos encontrar pessoas felizes e de bem com a vida, professem o que quer que professem. Do mesmo jeito, onde houver abnegação e ascese, encontraremos homens admiráveis. Mesmo nos grupos que se reúnem em nome da busca d'A Verdade, ainda assim encontraremos a ignorância voluntária de fatos que pudessem prejudicar a sua coesão, seja o mau exemplo de um líder, seja uma descoberta histórica ou o resultado de algum estudo.


É curioso perceber que o sensualismo exacerbado é um caminho comum para aqueles que abandonam à pretensão dogmática. Penso que seja justamente porque, face à incapacidade d’A Verdade e da sua exigência de coerência radical com sistemas de pensamento contingentes e portanto descontextualizados - uma receita perfeita para impedir o relacionamento com outras pessoas - em lhes dar aquilo que no fundo querem, coesão, eles acabam caindo de cara nas formas mais elementares e baratas de enlaces humanos. Conseguem coesão, mas não uma que vá durar muito tempo. E salve-se quem puder.

3 comentários:

  1. Se você vender o curso Como Ser Sensato Igual ao Inácio eu compro.

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  2. To lendo de novo porque é muito com <3

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  3. No caminho oposto ao exposto no título, o texto vai de algo um tanto difícil de provar (a Verdade com V maiúsculo) a algo visível mesmo aos insensíveis, que é a busca do homem pelo bem-estar (individual ou coletivo) acima do "bem-ser". Gosto do texto por ele ser "doa a quem doer", como a verdade.

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