“Chegará o dia em que teremos que provar para o mundo que a grama é verde!” G. K. Chesterton
Essa frase do “apóstolo do senso comum” é uma das prediletas da retórica conversadora das redes sociais, que se coloca como aquela proclamadora da Verdade frente a uma ordem social insandecida que nega o que há de mais natural e razoável.
Mas diga-me, prezado leitor…
…será realmente verdade que a grama é verde?
Afinal, o que é grama?
“Que pergunta idiota! Grama são aquelas plantas pequenininhas e compridas que não dão flor!” Bem, na verdade, grama dá flor, mas não uma flor que se encaixe no nosso desenho imaginário popular de como uma flor deve ser. Semelhantemente, pela biologia, mas não pela voz do povo, bambu também é grama. Seja na taxonomia biológica, seja nos termos populares, categorias são sempre algo que nós humanos inventamos para conseguir navegar no mundo material. Grama é um nome que inventamos para falar de várias espécies que são diferentes, mas que tem alguma semelhança que julgamos importante, assim como espécie é um nome que inventamos para generalizar vários indivíduos.
“E verde? Plantas são verdes, certo?” Bem, verde também não é algo que exista fora das nossas cabeças. Os japoneses, por exemplo, passaram mais de um milênio sem diferenciar o verde do azul em sua língua, de modo que diriam, sem nenhum embaraço, que a grama é da cor do céu, assim como nós dizemos que a bandeira do Brasil é da cor das matas e do ouro. No mesmo sentido, naquilo que nós enxergamos apenas “azul”, certos povos inuítes enxergam dezenas de cores, tão diferentes entre si quanto são, para nós, o vermelho e o rosa.
Aquilo que chamamos de “luz” é um recorte, limitado pela nossa estrutura biológica, do expectro eletromagnético. Cores são apenas recortes arbitrários desse expectro, que não são definidos por nenhuma “natureza das coisas”, mas apenas pela nossa cultura. O mesmo vale para palavras, espécies, povos, línguas, territórios, oceanos…
Muito embora todos entendam o que se quer dizer com “a grama é verde”, se nós quisermos ser de fato objetivos e ir além daquilo que só existe na nossa cabeça, deveríamos necessariamente chegar à conclusão de que essa frase é só uma construção retórica, algo muito aquém da “verdade”.
No mundo real - no melhor estilo “facts don’t care about your feelings” - não há grama. Nem verde.
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