O senhor da floresta gostaria de fazê-la jardim.
Suponha meu caro leitor que lhe foi dado poder sobre a floresta. Não somente poder, mas que lhe foram dados uma dezena de manuais, compilados de regras, princípios e métodos para otimizar a floresta, conformá-la a um ideal. Cabe a você, portanto, essa nobre missão.
Organizemos, portanto a floresta: enflileiremos as árvores, separemo-las por tipo, recolhamos aquelas pilhas enormes de matérias orgânicas que se acumulam sobre o chão e permitamo-nos substituí-la pela mais agradável grama-esmeralda. Expurguemos os espinhos, recolhamos as árvores venenosas e os capins, expulsemos os violentos animais. Que não haja fungos de nenhum tipo, nem cadáveres, que toda árvore que caia seja prontamente tirada de cena. Padronizemos o tamanho das plantas e seu formato, sem bromélias nem trepadeiras, e ensinemos boas maneiras aos animais. Esquematizemos o desenvolvimento de flores e frutos a fim de otimizar a produção e tragamos espécies exógenas conforme nos parecer adequado.
Finalmente! A floresta civilizada!
Imagine só!
A floresta civilizada é uma floresta condenada à morte. Conformar a floresta a um ideal - transformá-la em um jardim, ou em pasto - é destruí-la.
A floresta não precisa de conserto. Ela sobrevive em cada broto que cresce em brecha de concreto, enquanto que nós, com nossos concretos e ideias concretadas, inevitavelmente passamos e, de repente, não somos mais.
Ela, com toda as suas aparentes bagunça, vileza e desonestidade, é inspiradora, é bela, nos atrai. Mas para reconhecermos as consequências disso, teremos de admitir que querer, com todas as forças, construir um paraíso é o caminho mais rápido para instaurar um inferno.
Temos de admitir que aquilo que de fato queremos é o que excede os nossos tolos ideais, é a presença que dispensa qualquer razão, é a grandeza desenvergonhada de si mesma.
A natureza não precisa de redenção.
Nenhum comentário:
Postar um comentário