sexta-feira, 20 de setembro de 2024

A cidade ri

     Antes de haverem continentes, havia dinossauros.

    Grandes répteis encouraçados, a passos pesados marcando a terra, rugindo como nós nunca ouvimos, rasgando o cimo do céu e singrando mar abaixo. Que morreram, todos sabem. Dinossauros, peixes, árvores gigantes, tudo virou petróleo.

    Petróleo que virou asfalto, que cobriu o chão, que é a marca da moderna civilização. Asfalto que leva dinheiro, que traz pessoas, que junta o mundo.

    Petróleo que virou concreto, que constrói os prédios, que, na cidade, empilham pessoas.

    E a cidade ri.

    Ri das ruas, portas e paredes que guardam pessoas que, assim como todas, se vêem no centro do mundo, se vêem no pico da história.

    Passam movimentos nas ruas, mas não movimentam as ruas de asfalto de dinossauro. As pedras das praças ouvem missas e sentem pingar o sangue dos padres, sem nenhuma comoção.

    E a mesma pedra partida, agora, participa de prédios que brigam entre si, em que homens iguais, que falam igual e sentam em sofás iguais, pelejam por palavras diferentes.

    Discutem ideias que acham que podem mudar a cidade, mas é a cidade que muda as ideias.

    Se todos fossem como nós, não haveria nós, pois todo nós pede um eles diante do qual urge se afirmar. A cidade ri de quem quer mandar nela, recortá-la, achatá-la e espremê-la para que caiba em sistemas pequenos demais. Ri de quem usa os meios que criaram uma sociedade urbana, horizontalizada e indiferente para pregar absolutezas.

    A cidade ri de mim, ri de você.

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