segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Vocação

    Termo latino. Gramaticalmente, não carrega consigo nenhuma noção metafísica: vem do verbo "vocare - chamar" e significa o ato em que uma pessoa enuncia, geralmente convocando, o nome de outra.

    Seu envolvimento com a metafísica, que mesmo sua tradução para português vulgar como "chamado" carrega, até onde sei, é algo bem cristão. Esse termo passou a denominar o ato pelo qual o bispo - que, pode-se dizer, é o gerente de um grupo regional de cristãos - chamava um homem para fazer parte de sua equipe de trabalho, o clero. Hoje, os candidatos ao sacerdócio católico são voluntários e passam por cerca de 8 anos de preparação e, só concluídos seus estudos, são aptos a serem "chamados" pelo bispo. Mas nem sempre foi assim: na primeira metade da história do cristianismo, o bispo poderia simplesmente apontar um jovem homem da comunidade e escolhê-lo como padre - tal foi, por exemplo, o caso de São João Crisóstomo. Tal era a pressão institucional e comunitária para responder a esse chamado do bispo que o único método que  o então jovem João encontrou para se safar foi, bem literalmente, fugir. No dia marcado para sua ordenação, simplesmente não apareceu. Claro, sua história depois seguiu caminhos que esse começo rebelde não indicaria.

    Em resumo, era essa a única acepção de "vocação": ser convocado pela voz do bispo a compor o clero, como sucessão legítima do processo que Jesus Cristo mesmo usou para montar sua equipe, os apóstolos.

    Acontece que os tempos mudaram e hoje, mesmo em meios alheios à religião, fala-se de "vocação" para caracterizar um, e apenas um, modo de vida congruente às características "naturais" do indivíduo. Mesmo no meio católico, onde nasceu, o termo se desvirtuou e, hoje, fala-se de vocação para outras funções sociais (e sobrenaturais) para além do sacerdócio. Há vocação para a vida consagrada, para a vida matrimonial, para a vida missionária e há até os proponentes de uma vocação à solteirice... Sem falar na tão falada "vocação à vida intelectual"... Vocações essas que,  excluído o fator principal e fundamental (o bispo chama um homem), tem de recorrer também a um chamado, mas que é divino, misterioso, discernível a duras penas, que se deixa perceber numa introspecção para "aquilo que você verdadeiramente quer".

    Tendo falado da história cristã do termo, queria também fazer uma genealogia do ato que, mais a frente, se mostrará útil. Ora, o primeiro chamado que se acha é o chamado à existência. A narrativa do Gênesis mostra Deus criando pela palavra. "E Deus disse 'faça-se a luz' e a luz se fez". Acha-se aí, então, uma verdadeira vocação universal: nós humanos, junto a tudo que há, fomos chamados por Deus à existência e, só por isso, existimos. Criada a criação, os próximos capítulos nos apresentam um outro chamado de Deus, que se dá após a formação do homem. O conteúdo deste chamado é "vamos ao trabalho". Ao trabalho. Eu, Deus, criei este mundo. A vocês, homens, submeto-o completamente: cuidem dele. Cultivem este imenso jardim que confiei a vocês.

    Deus, dessa maneira, quis que o primeiro homem fosse jardineiro. Não só isso, mas é de se pensar que, se não fosse pela desobediência de Adão, tal seria o destino de toda a humanidade pelos séculos sem fim. Imagina? A humanidade perfeita seria aquela que realiza os trabalhos que, na sociedade de hoje, são os mais desprezados. Não à toa, quando Deus de fato fez um homem perfeito, fez com que fosse carpinteiro.

    Depois deste chamado ao trabalho, a única vocação universal que Deus faz é à conversão. De maneira geral, só nestes três chamados acredito que se possa falar propriamente que foi Deus que falou, pois falou sem precisar da colaboração de ninguém. Também há, é claro, as vocações dos Patriarcas e dos Profetas, registradas nas Escrituras, bem como aquelas que raríssimas pessoas alegam ter tido desde então, como manifestação verbal de Deus orientando-lhes.

    Feitas as exceções, que não temos motivo para acreditar que passem de, no máximo, pouquíssimas centenas de pessoas, é necessário retornar ao que é o caso de toda a humanidade: Deus, que seria o único capaz de fazer isso sem cometer um disparate, não vai se manifestar para nós. E então? O que fazer com a nossa vocação?

    Para entender isso, relembro do significado original do termo - e peço perdão se me faço repetitivo -, qual seja: um bispo chama um homem. Voltando a isso, vamos perceber que, se há alguém que chama, há um lugar para o qual se chama. Se há lugar, ele já existe, já está preparado. Basta ir e tomar posse. É assim que muitos entendem vocação: Deus, desde toda a eternidade, já pensou algo para você, já escolheu o que você devia ser, já preparou o seu lugar no mundo. É só descobrir qual é e assumir.

    Mas que mentira! Que absurdo! Olhemos para a criação do mundo. Adão, mesmo que já vivendo no estado de perfeição que passou a ser a nossa meta, tinha que trabalhar. Deus deu a Adão a vida biológica, mas deu a Adão a missão e a capacidade de, livremente, construir a própria vida e a de seus descendentes. Deus não disse "faça um canal aqui, plante cebola ali e construa um quiosque acolá". Entregou o jardim do Éden e disse "cuida". Se Adão perguntasse "como?", Deus decerto responderia "it's up to you".

    Isso não implica dizer que o homem poderia confeccionar a sua própria teleologia, pois Adão, assim como nós e como todas as criaturas, temos por finalidade glorificar a Deus. As aranhas fazem isso tecendo teias, as quedas d'água fazem isso caindo. E o homem? O homem glorifica a Deus com a sua criatividade, que se manifesta sobremaneira no trabalho livre.

    Deus não deu, nem a Adão nem a nós, algo além das regras do jogo e da matéria-prima. Sendo assim, não faz sentido nenhum esperar que uma voz nos indique o que fazer, prometendo uma vida pré-moldada que cairá como uma luva e manterá nossas mãos lisinhas e macias. Pelo contrário, a nossa missão é construir, aos trancos e barrancos, calejando as mãos, algo que seja bonito diante de Deus.

    O que fazer, então , dos autores cristãos que tratam da vocação como esse modelo de vida pré-moldada a que cabe somente o assentimento (e a salvação) ou o desprezo (e a condenação)? Honestamente, não sei. Mas sei que, nos requisitos da "prudência" que esses autores e seus leitores recomendam, reprovariam muitos dos santos mais admiráveis da história. E passariam muitos dos mais asquerosos.

    Após ouvir histórias de vida e conselhos das mais diversas pessoas de todas as idades, minha conclusão e a solução que proponho para a questão de "vocação" é: se dedique, trabalhe, com qualquer coisa que seja. Aquilo que "der certo", o que quer seja "dar certo" e ainda que muitas outras coisas tenham "dado errado", dirão que era sua vocação desde o começo.

Não sabe qual a sua vocação? Do it yourself.




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