quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Aspirantes R2: militares de segunda categoria?

    É comum nos meios militares que se considere os aspirantes de NPOR como um esboço mal-feito de um aspirante "de verdade", oriundo da Academia Militar. É verdade, como dizem, que não há comparação possível entre ambos. Contudo, isso está longe de implicar que, portanto, o aspirante da AMAN é superior: se são incomparáveis, são incomparáveis e a cada um cabe cumprir a missão que lhe é própria.

    Ora, o aspirantado da AMAN é a coroa de uma formação universal, longa e exigente em que, ao curso de cinco anos, ensina-se de filosofia à balística e forjam-se, por contínuos exercícios militares, os futuros oficiais do Exército Brasileiro. Oficiais, cabe dizer, não só subalternos ou intermediários, mas também superiores e até mesmo generais. Aos cursos de aperfeiçoamento que se seguem e que são necessários para galgar posições mais elevadas cabe somente, como o nome diz, aperfeiçoar aquela formação de caráter e de conhecimento que já foi feita na AMAN. Quem vê um aspirante no P3M deve ver não somente um futuro tenente, mas deve ser capaz de enxergar nele um futuro general.

    No NPOR, o aspirantado, se bem que coroe também um período exigente de formação, é menos como o encerramento de algo e mais como um plantio esperançoso. A espada que o ex-aluno recebe não é para ser usada imediatamente na tropa, mas para ser guardada e admirada, servindo de lembrança dos valores militares inculcados e absorvidos, ainda que sutilmente, ao longo do curso. Os frutos dessa semente plantada no NPOR, na imensa maioria das vezes, florirão ao longo de uma vida civil. O aspirante, às vezes magrelo e tacanho aos seus 19 anos, mais tarde se tornará um grande homem, um orgulhoso cidadão brasileiro e cumprirá, então, a sua missão de ser bom representante do Exército perante a sociedade e, principalmente, servindo de referência à sua família.

    Porém, "se a Pátria querida for envolvida pelo inimigo", aquele militar, mesmo que anos longe do quartel, fará a diferença no combate, assim como fizeram os mais de 400 oficiais temporários na FEB, mais da metade do efetivo de tenentes. O sangue que derramaram na Itália foi tão verde-oliva quanto o de qualquer outro militar.

    A vida civil, como foi dito, é o destino da quase totalidade dos mais de 2000 aspirantes R2 formados todos os anos em todo o Brasil. Mas há aqueles poucos que continuam, atendendo às necessidades do Exército, no serviço militar ativo. São esses que servem, muitas vezes, de objeto do desprezo de seus superiores e de escárnio para seus subordinados. Se, num primeiro momento, o aspirante de NPOR transpira certa imaturidade, nem que seja pela sua pouca idade, isso não deveria servir para descrédito seu. Pelo contrário, deveria ser sua honra: sabendo que sua formação foi curta e, por vezes, insuficiente, decide, atendendo a um chamado oficial do Exército, assumir um cargo de tão grande responsabilidade como o de oficial.

    Há militares ruins formados em NPOR?

    Com toda certeza, assim como há em qualquer outro círculo do Exército. O joio sempre estará junto do trigo, em qualquer lugar. É necessário também lembrar que a formação no NPOR está necessariamente sob o encargo de militares de carreira. Todo comportamento gravemente inadequado de um aluno, ou mesmo de um tenente, que não se possa atribuir à mera inexperiência, é devido ou a um defeito incorrigível do militar (e, portanto, não é culpa do NPOR), ou a um problema na sua formação e experiência na tropa (que só pode decorrer de um defeito ou do instrutor, ou na sua formação como militar de carreira).

    Pode-se e deve-se admirar o tenente de carreira pela sua perseverança e expertise, conquistadas a duras penas. O oficial combatente temporário, contudo, também merece admiração. Se não por mais nada, ao menos por sua audácia.

    A carreira no Exército, a começar pela sua formação na AMAN, é bem divulgada e, apesar de todas as suas demais exigências, é bem certa. Quem entra e persevera tem noções bem precisas de como serão seus próximos 30 anos.

    Já a formação no NPOR, mesmo entre os militares, se já é pouco recomendada, quem dirá divulgada. Muitos só a descobrem no dia do alistamento.

    É, por natureza, incerta, tão incerta que optar por ela passa a muitos até por burrice: se entrar e se formar, pode, ou não, ser chamado no ano seguinte. Os mesmos sangue, suor e lágrimas que se derrama na Academia Militar como preço a se pagar por uma carreira inteira e por uma aposentadoria integral, são também vertidos no NPOR, mas como garantia de nada além de uma história para contar depois.

    Ainda que seja chamado no ano seguinte, pode-se, ou não, ter o contrato renovado para o próximo e assim por diante. O tenente de AMAN sai conhecendo centenas de oficiais, por todo o Brasil; o de NPOR, só os dois ou três que colaboraram na sua formação. O tenente de AMAN recebe adicional de transferência e PNR; o de NPOR, viaja e se instala completamente por meios próprios. O tenente de AMAN sabe que sempre terá lugar para ele no Exército, para o resto da vida; o de NPOR, sabe que não e, mesmo assim, exerce as mesmas funções, sem ter certeza sequer do ano seguinte. Sem contar o desafio que é ver-se superior hierárquico efetivo daqueles sargentos que, há menos de um ano, ensinavam-no a marchar.

    O tenente de NPOR abandona, em muitos casos, sua cidade, sua família, namorada, amigos... tudo em nome de um trabalho em que, se bem que se ganhe mais do que a média, dinheiro nenhum no mundo compensaria se não houvesse em seu coração aquele nobre sentimento de encontrar no Exército aquilo que dinheiro nenhum pode comprar.

    No final das contas, todos os bons militares, sejam da ativa ou da reserva, tendo servido por 1, 8 ou 35 anos, amam a Pátria. Envergando a mesma farda, cantam: "Porém se a Pátria amada for um dia ultrajada", nós lutaremos, todos e cada um, ainda que com missões, especialidades e histórias pessoais as mais diversas, lutaremos num só Exército, "lutaremos sem temor"

    Podem ser aqueles que "saem mais cedo", mas também são aqueles que ficam até tarde da noite na faculdade.

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