segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Indecida-se!

    Qual profissão você deve exercer? Com quem você deve se casar?

    Quero distinguir entre dois esforços necessário para a existência do que quer que seja: o de criação e o de manutenção. No primeiro, algo que não era passa a ser e, no segundo, continua sendo.

    Para além da metafísica e da ontologia, podemos pensar nesses termos as grandes decisões das nossas próprias vidas: onde morar?, com quem casar?, que profissão seguir? etc. Historicamente, todas essas questões não foram objeto de muita deliberação para a maioria das pessoas: você moraria onde seus ancestrais moram, se casaria com quem a família lhe apontasse e exerceria o ofício que seu pai lhe ensinou.

    Hoje é diferente. Estão sob nosso alvitre essas questões e muitas outras, de modo que podemos viver de modo radicalmente diferente de nossos pais e contrariamente a tudo aquilo que se poderia esperar de nós. Mas isso tem um preço.

    Esse preço consiste em termos que dispender grande esforço na criação das próprias circunstâncias da nossa vida. Se podemos escolher qualquer caminho e temos que escolher, é uma tendência natural querer dar a essa escolha bases objetivas e pretender-lhe uma certa racionalidade. É por isso que se verão discussões extensas na internet, por exemplo, sobre qual cidade é melhor, ou qual carreira, com partidários de cada visão apresentando aquilo que pensam ser argumentos irrefutáveis de sua opção.

    E muitos, com efeito, se perdem nessas discussões. Ficam imóveis diante do cardápio de opções, esperando que haja não só motivos que lhe apontem um caminho como certo, mas também aqueles que tornarão todos os outros indesejáveis. Mesmo quando alguma circunstância os impele a sair desse eterno discernimento, facilmente desistem do caminho que começaram a trilhar, por não corresponder às suas expectativas. Quem já não viu isso acontecer?

    Reconhecemos que não se pode ficar escolhendo para sempre. Contudo, pouco se fala de como resolver essa questão, especialmente num mundo de internet que está todos os dias nos apresentando novas possibilidades de praticamente tudo.

    A solução que proponho consiste em renunciar à pretensão de racionalidade e, portanto, de certeza, dessas grandes decisões. A solução sã e fértil está em tratá-las como arbitrárias, que é o que foram, em linhas gerais, durante o resto da história da humanidade.

    Se desistirmos de achar a melhor opção, a pessoa mais conforme nossos gostos, a carreira mais lucrativa, a cidade mais agradável etc, seremos obrigados a trabalhar com aquilo que temos. E trabalhar, diferente de discernir, traz frutos e, portanto, satisfaz.

    Se somos tão infelizes com nossas escolhas, dificilmente é porque deveríamos ter escolhido outra coisa: com muito mais frequência, a infelicidade nasce de um coração dividido, incapaz de dedicar-se de verdade. São as virtudes, pessoais e intransferíveis, que tornam o homem feliz e não qualquer outra circunstância externa.

    O caminho, qualquer que seja, longe de já estar marcado, é também construído por aquele que o trilha. Por isso, também pode ser conhecido somente ao percorrê-lo: qualquer conhecimento prévio se mostrará, mais cedo ou mais tarde, insuficiente.

    Qual a lição final disso tudo? Sem ter certeza, escolha! Quando estiver difícil, persevere! Dedique-se, mesmo podendo fazer qualquer outra coisa.

    Depois, colha os frutos e agradeça.


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