sábado, 28 de outubro de 2023

Feitos um pro outro, feitos pra durar

    Da minha viagem para a Europa, trago agora uma impressão: eles construíam para durar. Nós, influenciados pelos nossos irmãos do norte, com suas casas de papelão e mdf, temos outra concepção. Cremos que uma boa obra é aquela rápida e barata, acima de tudo (exceto, é claro, quando se trata de superfaturar a construção de estádios).

    Estar numa grande igreja gótica nos constrange de muitas maneiras diferentes e uma delas, sem dúvida, é a de que as coisas levam tempo e, de fato, nunca estão acabadas. Foram séculos e séculos entalhando pedras para que elas chegassem ao nível em que estão hoje e mais séculos e séculos poderiam ser empregados não só na sua manutenção, mas também na sua decoração e aperfeiçoamento. Isso nos constrange porque nós, hoje em dia, não acreditamos mais num esforço que possa durar todas as nossas vidas, e até mais, sem promessa de fim. Mas os europeus de outrora criam e, por isso, construíram catedrais. Isso não significa que nós não saibamos nos esforçar: concurseiros, jovens querendo casar, alunos de cursos operacionais e muitos outros o exemplificam. Mas o que nós não compreendemos é o que esforço deve durar a vida inteira e cada conclusão de etapa, em que geralmente colocamos as nossas esperanças de descanso, marca apenas o início de um novo período em que importa esforçarmo-nos ainda mais. 

    Ora, passar na vestibular não significa parar de estudar, mas sim ter de estudar ainda mais. Vejamos também o casamento: não deveria ser segredo para ninguém que o que sucede o mútuo "sim" não é o "e viveram felizes para sempre" que os filmes prometem, mas sim aquilo que Chesterton dizia ser "um duelo até a morte, a que nenhum homem honrado pode se esquivar". E por que essa dimensão agônica? Porque é necessário esforço, esforço que doa, para dar forma a um conjunto harmônico. 

    Não há, com efeito, seres tão dessemelhantes como o são pessoas e rochas, mas, graças ao trabalho, somos capazes de fazer das rochas nosso belo lar. Assim foi nas catedrais: não há romance nenhum no contínuo quebrar, empilhar e entalhar pedras. Há, isso sim, essa tremenda labuta, sem a qual não pode haver catedrais. Simples assim. E nós, preguiçosos que somos, preferimos desistir das catedrais a ter de rasgar nossas mãozinhas no cabo de uma marreta. Desistimos da ideia de casamento, buscando, ao invés, uma alma gêmea com a qual "possamos ser nós mesmos", sem nos preocuparmos em nos fazermos melhores. E muitos outros exemplos.

    Escolhas.

    Remeto-me ao título e arremato o texto: quando você olhar para duas coisas - ou, ainda mais, duas pessoas - e pensar que "eles foram feitos um pro outro", saiba que não é assim. Eles se fizeram um para o outro. E, por isso, se fizeram durar.


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