Da minha viagem para a Europa, trago agora uma impressão: eles
construíam para durar. Nós, influenciados pelos nossos irmãos do norte,
com suas casas de papelão e mdf, temos outra concepção. Cremos que uma
boa obra é aquela rápida e barata, acima de tudo (exceto, é claro,
quando se trata de superfaturar a construção de estádios).
Estar
numa grande igreja gótica nos constrange de muitas maneiras diferentes e
uma delas, sem dúvida, é a de que as coisas levam tempo e, de fato,
nunca estão acabadas. Foram séculos e séculos entalhando pedras para que
elas chegassem ao nível em que estão hoje e mais séculos e séculos
poderiam ser empregados não só na sua manutenção, mas também na sua
decoração e aperfeiçoamento. Isso nos constrange porque nós, hoje em
dia, não acreditamos mais num esforço que possa durar todas as nossas
vidas, e até mais, sem promessa de fim. Mas os europeus de outrora criam
e, por isso, construíram catedrais. Isso não significa que nós não
saibamos nos esforçar: concurseiros, jovens querendo casar, alunos de
cursos operacionais e muitos outros o exemplificam. Mas o que nós não
compreendemos é o que esforço deve durar a vida inteira e cada conclusão
de etapa, em que geralmente colocamos as nossas esperanças de descanso,
marca apenas o início de um novo período em que importa esforçarmo-nos
ainda mais.
Ora, passar na vestibular não significa parar de estudar, mas sim ter de estudar ainda mais. Vejamos também o casamento: não deveria ser segredo para ninguém que o que sucede o mútuo "sim" não é o "e viveram felizes para sempre" que os filmes prometem, mas sim aquilo que Chesterton dizia ser "um duelo até a morte, a que nenhum homem honrado pode se esquivar". E por que essa dimensão agônica? Porque é necessário esforço, esforço que doa, para dar forma a um conjunto harmônico.
Não há, com efeito, seres tão dessemelhantes como o são
pessoas e rochas, mas, graças ao trabalho, somos capazes de fazer das
rochas nosso belo lar. Assim foi nas catedrais: não há romance nenhum no
contínuo quebrar, empilhar e entalhar pedras. Há, isso sim, essa
tremenda labuta, sem a qual não pode haver catedrais. Simples assim. E
nós, preguiçosos que somos, preferimos desistir das catedrais a ter de
rasgar nossas mãozinhas no cabo de uma marreta. Desistimos da ideia de
casamento, buscando, ao invés, uma alma gêmea com a qual "possamos ser
nós mesmos", sem nos preocuparmos em nos fazermos melhores. E muitos
outros exemplos.
Escolhas.
Remeto-me ao título e arremato o
texto: quando você olhar para duas coisas - ou, ainda mais, duas
pessoas - e pensar que "eles foram feitos um pro outro", saiba que não é
assim. Eles se fizeram um para o outro. E, por isso, se fizeram durar.
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