quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Da Cruz e d'O que nela pende

Antes que se esvaia a memória de dias particularmente difíceis, queria escrever algo sobre o sofrimento.

A dor diante da privação de um bem é uma realidade tão pungente que, tenho certeza disso, algum filósofo moderno pessimista deve ter dito que é a única certeza na vida humana. Mas não é do sofrimento psíquico do filósofo moderno que quero tratar, mas sim de um outro tipo de sofrimento muito mais universal: o da morte. Se nós voltássemos somente 100 anos no tempo, encontraríamos nas zonas rurais uma realidade que refletia muito bem a da maior parte dos seres humanos da história, e da pré-história. Não há antibióticos, seguridade social e tampouco a tecnologia agronômica de hoje.

Um corte no dedo pode te levar a morte, a morte do marido é a quase certeza da miséria da família e uma seca mais forte pode fazer perecer de fome uma cidade inteira. Claro, isso não fazia de ninguém um pessimista ensimesmado, muito pelo contrário. Quero apenas pontuar que a quase totalidade da humanidade esteve sob o jugo de sofrimentos que doem nos ossos, laceram a pele e, pela repetição de trabalhos exaustivos, destroem o corpo. E foi tomando parte nesse sofrimento que o Filho de Deus quis irmanar-se à humanidade que haveria de remir.

Desde a revolução industrial e num crescente que parece não ter fim, no entanto, nós ocidentais literatos não sabemos o que é, de fato, a fadiga, o frio, a violência e a humilhação. Tanto nos são estranhos que, e isso é claro em muito da literatura cristã, parece que o que há de mais notável nos Evangelhos é a presença do sofrimento. Cristãos ricos de todas as épocas passam horas fascinados, meditando sobre um sofrimento que nunca sentiram. Admiram-se mais da cruz do que de Cristo, como se ela fosse a boa notícia, como se o evangelho tratasse apenas da possibilidade de ir além da mediocridade e conforto de uma vida burguesa. É isso que os coaches de hoje esperam do cristianismo: um caminho de vida que permita ir além do hedonismo para buscar o sofrimento de que o homem precisa, sem sombra de dúvidas, para amadurecer e frutificar. Esperam a salvação por meio de uma cruz autoimposta.

Acontece que mesmo todo e qualquer pagão, desde que das classes mais baixas, sempre conheceu a cruz, o sofrimento e soube lidar com ele. Qualquer comerciante licencioso da babilônica Babilônia sabia sofrer calado, como muitos cristãos se gabariam mais tarde de fazer, atribuindo essa capacidade à força que recebiam de Cristo. E perseverar com dor, por si só, nunca aproximou ninguém da glória celeste que os cristãos esperam. É apenas o mínimo que se espera de um ser humano íntegro e que, no processo, faz dele um herói.

Falar de cristianismo e de mártires somente naquilo que não é novidade, o sofrimento e a perseverança, parece diminuir a mensagem do Evangelho. Cruzes, dores imensas, terá qualquer um que tente conseguir um bem nessa vida, especialmente os homens menos "espirituais", como são, desde sempre, militares e trabalhadores manuais. Mas poder ter, depois de uma vida de sofrimentos, uma vida eterna de alegre contemplação?

Essa sim é a novidade.

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