Em primeiro lugar, uma lição de filosofia: diz-se que a mente humana se
diferencia da dos animais principalmente por causa da capacidade de
abstração. Simplificando o termo, digo que abstrair nada mais é do que
conceber uma imagem mental a partir de muitos seres, que ajuda a
classificá-los, avaliá-los e comunicá-los. É por causa dessa capacidade
que nós humanos sabemos que um urso-polar, alvo como a neve, um urso
panda e um urso-pardo são todos ursos - nós temos, em nossa mente, um
conceito de urso, formado exclusivamente por aquilo que todos tem em
comum. A partir desse conceito, podemos saber se um determinado animal
é, ou não, um urso; e também fazer afirmações gerais sobre ursos, como
dizer que são fortes. Ao salmão, que viu ursos a vida inteira, nada
disso faria sentido: ele não conhece "urso", pois que é um conceito que
só existe na nossa mente humana (ou no mundo das ideias, como diria
Platão), mas conhece tão somente, de maneira individual, todos os ursos
que já viu.
Pois bem, se é verdade que a abstração é uma das
capacidades humanas mais fantásticas, se não a mais, na medida em que
nos permite usar números e linguagens diversas e fazer ciência, há de se
dizer também que nem sempre o conceito que se forma em nossa mente é
justo. Isso também não é segredo a ninguém. Todos admitem que foge à
razão julgar que, porque conheci um ou dois paulistas que me trataram
mal, todos os paulistas são grosseiros. Também pode acontecer de uma
abstração não ser falsa, mas ser, ainda assim, inadequado levá-la em
conta na hora de agir. Um homem com suficiente experiência de equitação é
um verdadeiro conhecedor do conceito de "cavalo", mas, ainda assim, se
fosse domar um animal pensando no cavalo ideal, encontraria decerto o
fracasso. Se Alexandre Magno não tivesse desconsiderado tudo que se
sabia sobre "cavalo" na sua juventude e se dedicado a entender somente
aquele indivíduo que estava dando trabalho à toda a corte, provavelmente
não seria Magno e jamais ouviríamos falar de Bucéfalo.
Chegamos,
finalmente, ao nosso problema. A partir do final da adolescência,
qualquer um vai entrar em contato, cada vez mais vezes, com uma novo
jeito de falar, que usa, como objeto e sujeito das frases o termo
"mulher" e correlatos. Se eu dissesse que atirasse a primeira pedra quem
já ouviu, ou mesmo falou, expressão no sentido de "mulher gosta é
disso", "mulher é assim", "mulher faz tal coisa mesmo" e aquela que
nomeia este texto, "fulano não gosta de mulher", acredito que não
restariam pedras no mundo. Agora vamos observar bem este termo,
"mulher". Trata-se, sem dúvidas, de uma abstração. Uma imagem mental que
tem por características aquilo que toda mulher tem em comum. Agora, meu
caro leitor, qual é a única coisa que se pode dizer que toda mulher tem
e que as diferencia de todo homem? Não é nada surpreendente: o corpo.
Mais especificamente, o sexo feminino, com todos os seus órgãos e demais
particularidades biológicas.
É por isso que, quando se diz
"Jorge não gosta de mulher", não quer se dizer que Jorge nutre antipatia
por mulheres, mas sim que Jorge é homossexual. (É curioso que aquele
que "não gosta de mulher" costuma ser o que mais lhes dá atenção, e, por
isso, está sempre andando com mulheres.) Tendo definido o que é "não
gostar de mulher", vamos agora lembrar daqueles que conhecemos que dizem
"gostar de mulher". Quem são eles? São aqueles que fazem jus, com suas
vidas, à cada letra da expressão que professam como identidade. Eles
"gostam de mulher", e vão dizer isso a qualquer um que pergunte. Eles se
comprazem tão somente naquilo que toda mulher tem em comum, e é isso
que buscaram e buscam nas dezenas de relacionamentos que acumulam na
vida. Eles beijam e depois se esquecem. Eles dormem e depois largam. E
se buscam aprender algo a mais sobre aquela pessoa, é na medida em que
isso os ajuda a acessar a única parte que lhes interessa, a fim de que
consigam o que, homens que são, embora em menor grau, conseguiriam de um
objeto inanimado qualquer: prazer sexual. Para eles, um churrasco bom
tem "carne, cerveja e mulher", todos na mesma categoria.
Gostar não
deveria ser ter estima, cuidar, proteger? Eles, pelo contrário, "gostam
tanto de mulher" que, na realidade, desprezam todas as mulheres. Vejam
como falam delas, como as tratam em suas necessidades, como agem depois
que elas lhes negam um beijo. Vejam as nossas músicas, as nossas festas,
os vídeos que circulam na internet, as histórias que se vê na rua e se
ouve no jornal. Vocês os conhecem melhor do que eu. Não são esses os
frutos do homem "que gosta de mulher" e da mulher que parece satisfeita
com essa situação, que se despe não só de todas as roupas para agradar o
sujeito, mas também de tudo aquilo que poderia torná-la única?
Entregar-se
a alguém que sequer leva em consideração a sua parte mais importante é
uma ideia terrível, porque ignora que ninguém se satisfaz apenas
sexualmente, não por muito tempo. É, todavia, apenas essa dimensão
sexual que se manifesta cada vez que se "fala de mulher". Quando se
trata uma categoria imaginária como se ela existisse, e somente ela,
ignorando todos os indivíduos que, esses sim, existem. Como disse um
poeta: "não existe tal coisa, "mulher" / Existe a Carolina e muitas
outras Beatrizes / Cada uma, para ser amada/ Todas, para serem felizes".
O que esperar de pessoas que tem por chave interpretativa da vida
frases nascidas de uma objetificação?
Agora, eu falo também em
nome de todos aqueles, e são muitos, que consideram que o maior tesouro
de uma pessoa é justamente aquilo que ela tem e ninguém mais, que é
intangível e, por isso, eterno: eu é que não gosto de mulher?
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