sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Eu é que não gosto de mulher?

 

    Em primeiro lugar, uma lição de filosofia: diz-se que a mente humana se diferencia da dos animais principalmente por causa da capacidade de abstração. Simplificando o termo, digo que abstrair nada mais é do que conceber uma imagem mental a partir de muitos seres, que ajuda a classificá-los, avaliá-los e comunicá-los. É por causa dessa capacidade que nós humanos sabemos que um urso-polar, alvo como a neve, um urso panda e um urso-pardo são todos ursos - nós temos, em nossa mente, um conceito de urso, formado exclusivamente por aquilo que todos tem em comum. A partir desse conceito, podemos saber se um determinado animal é, ou não, um urso; e também fazer afirmações gerais sobre ursos, como dizer que são fortes. Ao salmão, que viu ursos a vida inteira, nada disso faria sentido: ele não conhece "urso", pois que é um conceito que só existe na nossa mente humana (ou no mundo das ideias, como diria Platão), mas conhece tão somente, de maneira individual, todos os ursos que já viu.

    Pois bem, se é verdade que a abstração é uma das capacidades humanas mais fantásticas, se não a mais, na medida em que nos permite usar números e linguagens diversas e fazer ciência, há de se dizer também que nem sempre o conceito que se forma em nossa mente é justo. Isso também não é segredo a ninguém. Todos admitem que foge à razão julgar que, porque conheci um ou dois paulistas que me trataram mal, todos os paulistas são grosseiros. Também pode acontecer de uma abstração não ser falsa, mas ser, ainda assim, inadequado levá-la em conta na hora de agir. Um homem com suficiente experiência de equitação é um verdadeiro conhecedor do conceito de "cavalo", mas, ainda assim, se fosse domar um animal pensando no cavalo ideal, encontraria decerto o fracasso. Se Alexandre Magno não tivesse desconsiderado tudo que se sabia sobre "cavalo" na sua juventude e se dedicado a entender somente aquele indivíduo que estava dando trabalho à toda a corte, provavelmente não seria Magno e jamais ouviríamos falar de Bucéfalo.

    Chegamos, finalmente, ao nosso problema. A  partir do final da adolescência, qualquer um vai entrar em contato, cada vez mais vezes, com uma novo jeito de falar, que usa, como objeto e sujeito das frases o termo "mulher" e correlatos. Se eu dissesse que atirasse a primeira pedra quem já ouviu, ou mesmo falou, expressão no sentido de "mulher gosta é disso", "mulher é assim", "mulher faz tal coisa mesmo" e aquela que nomeia este texto, "fulano não gosta de mulher", acredito que não restariam pedras no mundo. Agora vamos observar bem este termo, "mulher". Trata-se, sem dúvidas, de uma abstração. Uma imagem mental que tem por características aquilo que toda mulher tem em comum. Agora, meu caro leitor, qual é a única coisa que se pode dizer que toda mulher tem e que as diferencia de todo homem? Não é nada surpreendente: o corpo. Mais especificamente, o sexo feminino, com todos os seus órgãos e demais particularidades biológicas.

    É por isso que, quando se diz "Jorge não gosta de mulher", não quer se dizer que Jorge nutre antipatia por mulheres, mas sim que Jorge é homossexual. (É curioso que aquele que "não gosta de mulher" costuma ser o que mais lhes dá atenção, e, por isso, está sempre andando com mulheres.) Tendo definido o que é "não gostar de mulher", vamos agora lembrar daqueles que conhecemos que dizem "gostar de mulher".  Quem são eles? São aqueles que fazem jus, com suas vidas, à cada letra da expressão que professam como identidade. Eles "gostam de mulher", e vão dizer isso a qualquer um que pergunte. Eles se comprazem tão somente naquilo que toda mulher tem em comum, e é isso que buscaram e buscam nas dezenas de relacionamentos que acumulam na vida. Eles beijam e depois se esquecem. Eles dormem e depois largam. E se buscam aprender algo a mais sobre aquela pessoa, é na medida em que isso os ajuda a acessar a única parte que lhes interessa, a fim de que consigam o que, homens que são, embora em menor grau, conseguiriam de um objeto inanimado qualquer: prazer sexual. Para eles, um churrasco bom tem "carne, cerveja e mulher", todos na mesma categoria. 

    Gostar não deveria ser ter estima, cuidar, proteger? Eles, pelo contrário, "gostam tanto de mulher" que, na realidade, desprezam todas as mulheres. Vejam como falam delas, como as tratam em suas necessidades, como agem depois que elas lhes negam um beijo. Vejam as nossas músicas, as nossas festas, os vídeos que circulam na internet, as histórias que se vê na rua e se ouve no jornal. Vocês os conhecem melhor do que eu. Não são esses os frutos do homem "que gosta de mulher" e da mulher que parece satisfeita com essa situação, que se despe não só de todas as roupas para agradar o sujeito, mas também de tudo aquilo que poderia torná-la única?

    Entregar-se a alguém que sequer leva em consideração a sua parte mais importante é uma ideia terrível, porque ignora que ninguém se satisfaz apenas sexualmente, não por muito tempo. É, todavia,  apenas essa dimensão sexual que se manifesta cada vez que se "fala de mulher". Quando se trata uma categoria imaginária como se ela existisse, e somente ela, ignorando todos os indivíduos que, esses sim, existem. Como disse um poeta: "não existe tal coisa, "mulher" / Existe a Carolina e muitas outras Beatrizes / Cada uma, para ser amada/ Todas, para serem felizes". O que esperar de pessoas que tem por chave interpretativa da vida frases nascidas de uma objetificação?

    Agora, eu falo também em nome de todos aqueles, e são muitos, que consideram que o maior tesouro de uma pessoa é justamente aquilo que ela tem e ninguém mais, que é intangível e, por isso, eterno: eu é que não gosto de mulher?


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