"É a guerra que nunca chega e a faxina que nunca acaba"Desde que incorporei-me às fileiras do Exército Brasileiro, tive de ouvir muitos perguntarem se eu estava fazendo muita faxina. "Tá pintando meio-fio já?" Naturalmente, a ironia descarada de frases como essa serve para cristalizá-las no imaginário popular, formando opiniões.
De todos os dias desde que incorporei-me às fileiras do Exército Brasileiro, creio não ter havido um único em que não tenha pegado uma vassoura. O fuzil, pela contrário, só o tive em mãos para atirar uma única vez, suficiente para entender a mecânica do tiro e me tornar apto para disparar.
Eu acredito que essa, realmente, deve ser a proporção. No imaginário popular, contudo, é um absurdo que os militares despendam mais pessoal, recursos e esforços para atividades administrativas do que para as bélicas propriamente ditas. Isso se vê desde os comentários de ironia descarada, os quais já tive de ouvir, que perguntam "já está pintando meio-fio, Inácio?", "cortando muita grama?", até os comentários de pessoas muito mais estudadas, mas nesse mesmo eixo. Nessa linha de pensamento, os militares ou deveriam estar 24/7 equipados e armados no terreno ou não deveriam existir.
No entanto, quem pensa assim mostra um grande desconhecimento da realidade de um exército. Para uma semana de atividades, com efeito, é necessário um mês de planejamento. Para um soldado na linha de frente, centenas tem de estar à retaguarda, estabelecendo a comunicação, preparando e entregando suprimentos, fazendo a manutenção dos armamentos, prestando socorro aos feridos, além, é claro, dos muitos superiores envolvidos no planejamento de tudo isso.
O absurdo não é que haja um quartel como o B DOMPSA, destinado tão somente a dobrar paraquedas. Absurdo é ignorar que, sem atividades como essa, seria impossível haver paraquedistas. Dizer que um militar do setor administrativo é menos respeitável do que um operacional é tão estranho quanto pretender que haja uma hierarquia entre os membros do corpo, sem compreender a interdependência profunda entre todos eles.
Sim, todo e qualquer militar já fez muita faxina em sua vida. Temos até um uniforme específico para tal! Não há general que não tenha passado horas com a vassoura em mãos na AMAN, exercitando nessa atividade o mesmo zelo que se espera dele hoje no governo do Exército. Nisso, a sociedade militar distingue-se da civil, colocando quase como um dos pilares da sua formação aquelas atividades braçais que, por herança de uma cultura escravista, a sociedade civil julga indignos.
Os militares, pelo menos num sentido bem prático, limpam a própria sujeira.
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