quinta-feira, 27 de abril de 2023

Stanford, Exército, Cristo, Romance

"Aquele que é fiel nas coisas pequenas será também fiel nas coisas grandes. E quem é injusto nas coisas pequenas o será também nas grandes" Lc 16, 10


    Você conhece a Teoria das Janelas Quebradas?

    Ela foi formulada quando pesquisadores da Universidade de Stanford decidiram estudar a criminalidade e, para tal, abandonaram dois carros em Chicago. Um, num bairro pobre e o outro, num bairro o rico. O do bairro pobre foi logo vandalizado e saqueado: levaram as rodas, o rádio, os espelhos e, tudo que não levaram, destruíram. Enquanto isso, o do bairro rico seguia intacto. "Eureca!" - poderiam dizer os pesquisadores - "A pobreza é causa de criminalidade!". Acontece que, para testar uma hipótese, os pesquisadores quebraram a janela do carro no bairro rico e, logo depois, ele estava na mesma situação do primeiro. Quer dizer, então, que não era a pobreza que fomentava o crime, mas sim a impressão de descaso que a desordem trás. Ora, se alguém quebrou a janela do carro e nada aconteceu, segue que o roubo do rádio também ficará impune. E se já levaram o rádio, por que não as rodas? E segue.

    É verdade, assim sendo, que deixar pequenas infrações impunes fomenta a criminalidade. Também, e isso foi testado em diversas políticas públicas ao redor do globo, que ambientes ordeiros e limpos implicam um aumento na segurança da população. É como se as pequenas regras salvaguardassem as grandes leis, assim como os peões do xadrez protegem o o rei.

    A meu ver, as escolas militares acertam muito nisso: o aluno que sabe que, a qualquer momento, pode ser punido por uma camisa levemente amassada ou uns fios de barba mal-feita não vai ter tanta disposição para planejar uma grande besteira. Mesmo quando bater o espírito da rebeldia, basta deixar de fazer o bigode por dois ou três dias e ele gozará do mesmo prazer desordenado do que um outro aluno, de uma escola menos regrada, sente ao fumar maconha no banheiro.

    Acredito que nisso também estava a sabedoria dos antigos em perpetuar uma cultura cheia de ritos para tudo: rezar, namorar, se alimentar, plantar, colher... Todas essas pequenas regras, por mais ilógicas que parecessem ser, tinham uma finalidade que ia além delas mesmas: proteger o essencial. Claro, serviam-no também de outros modos, ornando-o, enriquecendo-o.

    Consideremos, por exemplo, todos os pequenos gestos de respeito e veneração que outrora eram esperados dos homens em relação às mulheres, mesmo aquelas de seu mais íntimo convívio. Se vemos hoje emergir os mais grosseiros excessos [ou seriam faltas? Divago. É conversa pra outro dia], dos quais há poucas décadas até mesmo mencionar o nome seria impensável, não é absurdo considerar que parte desse processo foi o abandono dessas pequenas ações.

    Claro, para quem quer fazer uma besteira, nenhuma barreira é suficiente e, não tão raramente, as pequenas regras podem ser mais opressivas do que benéficas. Mas, como diz o adágio latino, o abuso não desmerece o uso, ainda mais quando o abuso está mais numa inversão da prioridade que é o princípio de todo esse argumento, que é que as pequenas leis servem as grandes, e não o contrário.

    Se não há pequenas regras a serem seguidas, os grandes princípios ficam vulneráveis.

    Não à toa, Santo Afonso, o grande Doutor da Igreja, moralizou a sua diocese insistindo na correta e minuciosa observação das rubricas da missa por parte dos sacerdotes.


 

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