quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Jesus fugiu

 Jesus não nasceu Cristo. Tornou-se Cristo porque muitos, à sua época, enxergaram nele o líder enviado por Deus para restaurar o Povo Escolhido na sua soberania, destruindo os seus opressores estrangeiros e purificando-o dos inimigos internos.

Cristo, com efeito, vem do grego Xplotós (Christós), que traduz o hebraico n'uin (Mashiach/Messias) e que significa Ungido. Os reis, sacerdotes e profetas judeus eram ungidos, como sinal da aprovação e do poder que Deus lhes conferia para tomar à frente das questões públicas.

Jesus, de fato, era uma figura que chamava muita atenção: um jovem promissor que saíra do completo anonimato apenas há três anos, primo do recém assassinado pregador, o popular João Batista, que já falava com sabedoria e autoridade, denunciando a elite judaica e reunindo multidões. Muitas figuras já tinham trilhado esse caminho na história do povo judeu e, particularmente, nas décadas que precederam Jesus. Muitos já haviam dito serem messias e prometido liderar uma revolução que libertasse o povo judeu da opressão romana.

Jesus nunca esteve tão perto de mostrar a todos que era o messias enviado por Deus quanto na semana da Páscoa, em que a multidão que vinha da diáspora para Jerusalém, mais que triplicando o número de habitantes da cidade, decidiu aclamá-lo como rei. Ele, de fato, era o rei legítimo de Israel, por ser descendente do rei Davi.

A multidão contava com ele, que viu seu próprio povo tantas vezes ser violentado pelo poderio do Império Romano, que sofreu na pele a miséria a que a elite local condeva os mais pobres, que tantas vezes se compadeceu dos sofredores e deu voz às suas revoltas contra a elite farisaica.

O que Jesus fez quando contava com o apoio de toda uma multidão furiosa, membros do seu próprio povo, oprimidos pelos romanos e pelos fariseus, pronta para fazer o que fosse necessário para se libertar dos opressores? Ele se entregou.

Os fariseus foram capturá-lo justo no dia mais sagrado do ano. Pedro, o líder do seu grupo de seguidores e amigos, quis reagir à ameaça e, desembainhando a espada, cortou a orelha de um soldado romano.

Essa poderia ser a primeira gota de sangue de um mar de violência, a faísca que incendiaria toda a Judeia, se Jesus não tivesse ordenado "Pedro, guarda a espada: quem vive pela espada, morrerá pela espada".

Que Messias é esse? Que líder é esse que na maior crise de sua vida, em que contava com o apoio da multidão, não luta por um segundo sequer e até proíbe que lutem? Que libertação pode vir daí?

A multidão, que até então o acompanhava com esperança, entende que não será Jesus que o líder que será capaz de liderar a guerra de libertação do povo judeu. Ele é um falso messias. Um líder fraco. Um covarde. Um traidor e, como tal, merece ser morto. Mesmo os amigos mais íntimos de Jesus saem correndo, para proteger suas vidas.

Jesus vai a julgamento. Afinal, de que lado ele está? Os fariseus acusam-no de inimigo dos judeus e amigo dos pagãos e da ralé, a multidão o acusa de coadunar com sua opressão pelas elites, os romanos vêem nele mais um agitador do povo que ameaça seu domínio.

É então que a multidão, que só queria Jesus se ele lhes desse o sangue que tanto desejavam ver correr, decide que o sangue dele que deverá jorrar como primícias. É por isso que eles preferem, quando Pilatos - o governador romano - lhes dá a opção, libertar o assassino Barrabás e condenar Jesus à morte.

Por vil e abjeto que o assassino seja, pelo menos ele tem a coragem de sujar as mãos de sangue, de lutar pelo que acredita. Jesus não luta em momento algum. De que lado ele está?

Jesus não está de nenhum lado: ele está acima e, por isso, morre suspenso numa cruz. É tratado como revolucionário e assim crucifico logo após ter deixado claro que nunca quis uma revolução.

A seu lado está um ladrão, revolucionário, que, com a morte diante dos olhos, passa a enxergar a pequenez da causa política pela qual lutou e foi condenado e pede para ser aceito no Reino que Jesus prometeu, que não é deste mundo.

É certo que revolução alguma se dá sem multidões e Jesus, mais de uma vez, fugiu delas.

Mesmo sendo tão idealista, parecia extremamente alheio às preocupações sociais de seu tempo.

Era judeu, do povo oprimido pelo Império, mas não só curou o filho de um militar romano como disse que nunca achou fé em Israel do tamanho da que esse homem tinha. Era judeu, do povo puro escolhido por Deus, mas andava com os pagãos e pecadores. Era sábio e letrado, mas cercou-se de pescadores rudes.

Como pode Jesus ser tão insensível às questões sociais do seu tempo, tão despolitizado, pregando o perdão aos inimigos justo numa terra há séculos subjugada e a um povo tão violentado?

O absurdo não parece óbvio para nós, herdeiros políticos de tantas revoluções?

A multidão é a vontade do povo soberana, ela que derrubou o rei da França, os colonizadores do Haiti, o czar na Rússia e, agora, até o Primeiro Ministro do Nepal. Em nome da coletividade e da libertação, não há espaço para nuances e questões individuais: quanto à oportunidade, é tudo ou nada e, para combater o inimigo, todas as violências são justificadas.

Não há mais justo ou injusto quando se diz combater a injustiça, nem se restringe a violência para combater o opressor. Não há morte de inocentes, porque quem não se junta à horda revoltosa não é inocente de modo algum, mas inimigo!

Quantas crianças e idosos não foram assassinadas pelos revolucionários de que tanto nos orgulhamos, por serem eles os predecessores das nossas pujantes e modernas democracias?

As multidões, com efeito, só são possíveis com uma visão seletiva e coletiva que Jesus nunca teve, pois tratava todos com igualdade, em sua individualidade, sem fazer acepção de pessoas em razão do grupo a que pertenciam.

Não se importava se seu interlocutor era romano, judeu, samaritano, pobre, rico, homem ou mulher: a todos ouvia, individualmente, a todos acolhia, a todos perdoava, a todos admoestava e pregava a Vida Eterna.

Jesus foi aclamado por uma multidão num dia e, menos de uma semana depois, condenado à morte por ela. Não deu o sangue que ela queria e, por isso, o seu foi derramado. Ele, entretanto, que não viveu pela espada, não morreu pela espada.

Assim também é com os seus. Quem vive pela Vida Eterna há de recebê-la e, assim, fará parte da multidão enriquecida por aquilo que a traça não rói, o ladrão não rouba e nem o tempo apaga.

Não é fácil.

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