quinta-feira, 19 de junho de 2025

“Lembrai-vos da Guerra”

    Logo que ingressei no Exército, surpreendi-me com a densa seriedade que permeava nossas atividades. Nunca havia sentido isso nos sete anos de Colégio Militar. Lá ríamos e víamos os militares rirem. Entretanto, nas primeiras semanas de curso no meu pequeno NPOR, não era assim. Qualquer mostra de leveza no olhar ou, pior ainda, resquícios de sorriso era prontamente repreendido e punido. Não estávamos lá para brincadeira, deveríamos nos tornar militares. Mas o que é o militar?

    Tenho me feito essa pergunta várias vezes desde que me deparei com uma recente campanha publicitária do Exército que está estampada pela Rodoviária de Brasília: fotos de pessoas sorridentes, fardados e em trajes civis, com os dizeres: “Exército Brasileiro Igual a Você”. À primeira vista, causou-me incômodo. Depois de várias vistas, hoje, finalmente, pude dizer o porquê. Lembrei-me dos dizeres do poema que conheci no quartel, “Lembrai-vos da Guerra”.

    O Exército é a instituição que deve, por dever, lembrar da Guerra. Nesse sentido, tem um papel quase sacerdotal, haja vista que, sob o risco de perder sua identidade, deve manter viva a memória de algo que a maioria de nós não vê e não sente, apenas ouve falar. É justamente pela natureza da missão, eminentemente transcendente, que, ainda que laico, o Exército carregue uma estrutura organizacional herdada em muito da Igreja Católica. Tanto nas paróquias quanto nos batalhões, vemos um sem-número de rituais, datas festivas, regras cerimoniais, hierarquias (do grego hieros - sagrado), restrições de liberdade tendo em vista a uniformidade de pensamento…

    O Exército, assim como a Igreja, se afasta muito da lógica mercantil na visão da sociedade, mais até mesmo, com justeza, do que os Três Poderes da República. Do padeiro espera-se que entregue pão e do juiz, que defina sentenças justas. Do militar, a sociedade não espera um produto, mas sim uma postura tal que reflita, para o temor dos inimigos e conforto da população, uma tal consideração da guerra que o leve a estar sempre preparado, por mais distante que ela pareça estar no espaço ou no tempo.

    É por isso que o militar ideal, mítico, no molde do qual todos os militares costumavam ser formados (pergunte aos antigos), e que ainda persiste no imaginário popular, não sorri. Não sorri por não se esquecer do esforço derradeiro de seus irmãos que o precederam, cujas vidas derramadas foram o preço de tudo que conquistamos. O militar não sorri porque o peso da responsabilidade pelos seus o atormenta.

    Numa sociedade de paz, seu ofício o obriga a viver para a Guerra. Sua própria existência é o testemunho de verdades que cada um de nós prefere esquecer.  Lembra que nossa prosperidade é construída em cima de muito sangue e pólvora. Que as instituições que normalmente guardam a nossa paz (pode-se falar de paz num país com essa taxa de homicídios?) podem falhar e, mais cedo ou mais tarde, falham. Todas as instituições, inclusive esse acúmulo de egoísmos e enganações, chamado Jeitinho, que mantém coeso nosso tecido social.

    Se o militar preza, em primeiro lugar, pela verdade, é somente por respeito aos termos daquela velha amiga sua que nunca se deixou enganar por ninguém: a Morte. Não há nada como ver uma morte estúpida para expurgar da alma a preguiça de cumprir com exatidão o dever.

    Se a Guerra chegar, não quero um militar que seja igual o resto da sociedade, “gente como a gente”. Quero, e sei que não estou sozinho, militares cujas cerimônias mantenham vivos os heróis do passado e cujos treinamentos encham a nossa terra de novas histórias de honra e coragem.

    Que cada um de nós, não perdendo de vista essas verdades, faça sua parte para não deixar a Instituição se desviar para finalidades alheias àquela única que deve, com toda a seriedade de quem lida com vidas, cumprir: lembrar-se da Guerra.


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