Sigo nesta rede um cidadão que, divulgando sua rotina de alimentação e atividades físicas, costuma rotulá-la de "guerra diária". Há dois meses, incomodei-me com isso.
Eu nunca fui para a guerra. Mas há menos de três anos, fui para o Imperial Museu da Guerra, em Londres. Lá, logo na primeira sala, destacava-se uma frase do capitão Theodore Wilson, que viveu a Prineira Grande Guerra:
""Whatever war journalists may say, or poets either, blood and entrails and spilled brains are obscene. War is about the most unclean thing on earth."
Em bom português: "Não importa o que jornalistas de guerra ou poetas digam, sangue, entranhas e cérebros esparramados são obscenos. A guerra é uma das coisas mais imundas do mundo."
E desde fevereiro de 2023, sou militar. Trabalho numa instituição feita para a guerra e tive um bom bocado de experiências que simulam-na. Por isso, permitam-me dizer: não há nada de a ”guerra” em ir para academia ou comer vegetais.
A primeira lição que se aprende no Exército, como preparação para a guerra, é que você não é mais dono da própria vida. Da incorporação em diante, todos os seus horários, atividades, alimentação, localização e até mesmo a aparência estão à disposição de seus superiores. E claro que, com o passar do tempo, isso se torna costume e, com o passar do dia-a-dia, quase se pode criar a expectativa de ter autonomia.
Basta, entretanto, apenas um acionamento na noite de final de semana, um atraso na liberação ou uma missão de última hora sem previsão de retorno para lembrar o militar do "compromisso terrível" que ele fez, ao dispor sua vida em função do serviço ao Exército.
Na guerra, com efeito, tudo isso é pior. Sua vida não só está à disposição de uma longa cadeia hierárquica, mas também depende da ação das forças inimigas. O soldado em combate não escolhe onde dorme e, na verdade, sequer sabe se vai dormir. Não escolhe o que come, nem quando e, muito menos, pode decidir para onde vai ou o que lhe cabe fazer. Não há, portanto, como chamar de guerra uma vida tão tranquila em que se pode escolher exatamente o que se come, quantas horas se dorme e quanto tempo dispender em atividades de lazer.
A guerra é o descontrole total sobre a própria vida. Esse quotidiano regrado e autoimposto que muitos "influenciadores" vendem é resultado de uma vida extremamente confortável, tão tranquila que se faz necessário buscar "sarna para se coçar". Na verdade, o descontrole sobre a própria vida não é exclusividade dos soldados. E, isso sim, uma característica da quase totalidade das pessoas. Nós não podemos fazer tudo aquilo que quisermos, não podemos ser "produtivos" a toda hora.
Temos que enfrentar trânsito, preços altos e o trato quotidiano, familiar e profissional, com pessoas para quem a prioridade não é a nossa própria "alta performance". Essa é a vida real, em que nós simplesmente não podemos ser o centro. A saúde física, como tantos exemplos de pessoas nos mostram, deve estar subordinada a saúde social. Vale a pena abrir mão do próprio bem-estar, destruindo-se mesmo, em prol do próximo. Isso é a verdadeira virtude (do latim vis - força) ensinada por Cristo.
Até onde minha Bíblia mostra (pois talvez eu esteja com a versão desatualizada), Cristo não venceu a morte na porrada. Tampouco São José foi exemplo de homem pelo tamanho de seu bíceps, mas sim por abrir mão da sua força em função do papel que Deus lhe delegou. Os apóstolos também, ainda que decerto fossem resistentes, não o eram pela estatura, nem pela agilidade e nem pela massa.
Foi pela Graça que venceram o mundo.
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