Há alguns milênios em que nós nos preocupamos com sucesso, com vencer na vida. Há alguns séculos em que o sucesso tornou-se sinônimo de possuir bens de desejo: terras, palácios, iPhones... Há algumas décadas em que vencer na vida tornou-se, principalmente, publicizar uma imagem.
É nesse contexto em que o principal de nossas vidas está nas 'redes sociais' (aprender, comprar, admirar) que passamos a enxergar nesses meios a mina de ouro dos negócios. Nos últimos anos, ter uma conta bem apresentada foi sinônimo de grande sucesso. Textos bem escritos, imagens cinematográficas, designs cuidadosamente pensados... Tudo isso foi causa, marca e consequência de sucesso.
Mas como será agora, com as tecnologias de IA?
O texto e a imagem, há décadas prova inconteste de sucesso, agora podem ser feitos por 'qualquer um”. Muito daquilo que considerávamos marca de autenticidade, de originalidade e de humanidade pode ser agora falseado por computadores.
Nos acostumamos, pouco a pouco, a fazer do mundo virtual o nosso mundo real, aquele que realmente importa, que nos abre as portas para aquilo que, de outro modo, jamais seríamos capazes de ver ou fazer. Mas e agora?
Agora, os nossos olhos vêem, muitas vezes, aquilo que não é mais real do que um sonho. Não só aceitamos ter a maior parte da nossa socialização mediada por máquinas, mas agora são essas mesmas máquinas aquelas que nos socializam: o algoritmo nos dita o quê convém ver, a LLM apela à nossa antiga 'inteligência' e a IA geradora de vídeos aos nossos antigos 'sentidos. Quantos não julgarm ser a IA o parâmetro máximo da verdade ("©Grok, isso é verdade?") e as visualizações e curtidas o parâmetro máximo do sucesso?
Claro, também há milênios em que muitas pessoas pregam e chegam à conclusão de que essas ideias de "sucesso" são papo, em última instância, furado. Não é segredo para ninguém que integridade, desapego e generosidade são a fórmula de uma vida feliz e fecunda. Também não serei o primeiro a denunciar o perigo das imagens que são capazes de confundir o homem, fazendo-o acreditar que a representação contingente é o real. No mesmo sentido, já foi alertado que a traça rói as riquezas, mas não a virtude, e que a nossa palavra não é senão um sopro.
Agradeço à IA por mostrar que imagens perfeitas, descritas ou mostradas, podem ser e são falseáveis! Agradeço aos bots por mostrar que validação por números não significa nada! Agradeço ao ChatGPT por mostrar que desperdiçamos nossa vida fazendo o trabalho de máquinas! Agradeço, sobretudo, aos inúmeros reels ridículos que assistimos todos os dias por não nos deixar esquecer que somos ridículos!
A IA tem a competência de um zilhão de homens, mas sem o comprometimento de um homem se quer. Faz tudo! Nada recusa, porque em nada crê e a ninguém presta contas. Quando nega, nega como homem de negócios, que nunca diz "jamais", mas simplesmente constata que "agora não convém".
O que será da competência sem aquelas limitações humanas que chamamos de moral?
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