Com cada vez mais frequência, ouve-se nas paróquias a tradicional oração chamada "Alma de Cristo", atribuída a meu homônimo Inácio de Loyola (+1556).
Caso não a conheça, ei-la escrita:
Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro das Vossas chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me separe de Vós.
Do inimigo maligno defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me.
E mandai-me ir para junto de Vós, Para que Vos louve com os Vossos
Santos
Pelos séculos dos séculos. Amém.
Dentre os 12 versos, um, em particular, me chama a atenção "Sangue de Cristo, inebriai-me".
Em primeiro lugar, por ser o único que faz uso de uma palavra um tanto quanto desconhecida. Todos nós sabemos o que é santificar, salvar, lavar, confortar e, de fato, já estamos acostumados a ouvir essas palavras na igreja
Mas o que significa inebriar? Inebriar significa tornar ébrio. Mas o que é ébrio? É o antônimo, isto é, o oposto de um outro substantivo que conhecemos bem: sóbrio.
Sendo assim, inebriar nada mais é do que um termo arcaico que significa embebedar, ou, melhor ainda, deixar bêbado. Quando enche a cara, um cachaceiro inebria-se. Ensine essa para seu tio no próximo churrasco, ele vai se sentir chique.
Esclarecido o termo, o significado da oração parece se tornar um tanto mais obscuro.
Afinal, estamos rezando para ficarmos bêbados? Distoa um pouco do nosso lugar comum em que igreja e bebida não se misturam. Além disso, pedir para que o Sangue de Cristo nos deixe bêbados parece algo que beira a blasfêmia e, com certeza, é para não ferir ouvidos pios que se mantém o termo arcaico "inebriar"
Como entender essa oração, uma das mais conhecidas de toda a Igreja?
Em primeiro lugar, a relação entre o Sangue de Cristo e álcool não é surpresa para nenhum cristão, haja vista que Jesus, na véspera da sua Paixão, "tomou o cálice [de vinho], deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: 'Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para a remissão dos pecados" Mt 26, 27-28.
É Jesus que diz ser o vinho consagrado o seu próprio sangue e assim, deixou o exemplo e a ordem que a Igreja segue até os dias de hoje, repetindo esse feito em cada missa. Na comunhão, o católico recebe, sob a aparência de pão e vinho, verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo.
Em segundo lugar, consideremos o que faz um bêbado.
O álcool tem um efeito desinibidor, ou seja, faz com que o indivíduo se sinta mais à vontade em passar por cima de várias limitações que regulam o dia a dia. O bêbado, geralmente, fala demais, fala mais alto, fica mais descontraído, perde a noção do tempo, do espaço. Perde, muitas vezes, a noção do perigo, expondo-se a maiores riscos.
Quando bêbados, estamos com nossa percepção da realidade alterada, enxergamos o mundo de outra maneira, de uma maneira que, para a pessoa sóbria, não faz o menor sentido. Não à toa, quando os Apóstolos, repletos do Espírito Santo, puseram-se a pregar o Evangelho em línguas estrangeiras, foram acusados de beberrões. "Outros, contudo, zombavam e diziam: eles beberam vinho demais" At 2, 13
Se vemos alguém falando entusiasmado na rua algo que soa para nós como um monte de barulho sem sentido, geralmente é um bêbado. Todavia, pode ser também um santo.
O santo, assim como o bêbado, enxerga o mundo com uma outra perspectiva, que não pode ser entendida por quem não vive. O santo é desinibido: não teme ameaças, não vê diferença entre um rei e um mendigo, vive como se não houvesse amanhã. Grita nas ruas, dorme no chão, vira a noite… Se é uma péssima ideia confiar um carro a um bêbado, também o é confiar certas atividades aos santos. São Francisco, filho de um rico comerciante, levou seu pai à falência ao vender todos os panos a preço de banana para distribuir o dinheiro aos pobres.
Histórias não faltam para comprovar que santos são, em geral, administradores bem irresponsáveis dos seus bens. Confiam cegamente nas palavras d'Aquele que elogia os passarinhos por não trabalharem nem guardarem nada, mas viverem só da confiança em Deus.
O maior triunfo do santo é, assim como o bêbado, não ter medo de nada. É o medo que nos leva a pecar. O medo da morte, da pobreza, do desprezo, do dia de amanhã.
E é o destemor que nos permite viver.
O alcoólatra é capaz de largar tudo pela bebida. O cristão deveria seguir seu exemplo.
Essa oração é uma testemunha claríssima da verdade tão esquecida de que o cristianismo não é uma religião para homens sérios bem-sucedidos, respeitáveis donos de si.
É uma religião que, se levada a sério, te faz parecer um bêbado.
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