terça-feira, 13 de agosto de 2024

Somos quem podemos ser

    Creio que meu leitor já esteja suficientemente familiarizado com a noção de que, assim como a aranha vive na sua teia, nós humanos vivemos nas nossas narrativas. Histórias são tudo que restará de nós depois que morrermos e, até lá, nossa vida é perpetuar histórias que começaram muito antes de que nascêssemos.

    Quais são as histórias a que dedicaremos nossas vidas e que, em troca, darão a ela um gosto de sentido? A família é uma das opções mais básicas: todos conseguem transmitir seu código genético e a maioria encontra sentido nisso, mais cedo ou mais tarde, escolhendo então passar adiante não só genes, mas hábitos, línguas, valores… Ao se enxergarem como casal e, mais tarde, como pais, homem e mulher assumem por isso funções sociais e acabam por, em maior ou menos grau, conformarem suas personalidades em função das expectativas associadas a elas.
Contudo, ainda que cause uma gravidez, um homem pode escolher não se enxergar como pai e, como infelizmente vemos muito acontecer, isso impede que ele de fato seja um pai efetivo. Além do abandono paterno, casos de doação de esperma também trazem essa problemática. Por outro lado, se outro homem quiser enxergar-se como pai e assumir a criança, ele sem dúvida se torna um pai, ainda que “apenas” afetivo.

    Como vemos, as nossas ações consideradas objetivamente, ainda fosse possível eximi-las da multi-valoração inerente de serem humanas, importam menos do que as narrativas em que se as enxerga quando se fala de causar algo na nossa vida. Engravidar ou não alguém, hoje em dia, não significa quase nada quando se trata de fazer de um homem um pai ou não. Dito isso, o que significa enxergar-se dentro de uma narrativa?

    Postulo que seja aderir aos tipos ideiais presentes nela ou, dito de outra maneira, acreditar nos heróis. Um herói é uma pessoa elevada, por força da narrativa, à condição de ideial: Sócrates é a Busca pela verdade, São Francisco é a Pobreza cristã, Martin Luther King é a Libertação dos negros. Mesmo em outras narrativas com aparente ausência de figuras heroicas, como poderia ser a da família, ainda há sempre um ideal heróico que a sustente.

    Acreditar num ideal, buscar seguir os passos de um herói, de fato faz com que nos conformemos a ele, tornando-nos parecidos com nossos heróis. Penso agora em quanto o mundo moderno e nós mesmos não sofremos por termos desistido coletivamente dos nossos heróis e que disso nasce a nossa índole sem vontade, e portanto capacidade, de construir algo como antigamente.

    Por que, portanto, somos quem podemos ser? Porque a nossa identidade é melhor compreendida pelos ideais em que acreditamos do que por aquilo que fazemos aqui e agora. A nossa crença é a chave interpretativa através da qual enxergamos o que quisermos da vida, que nos abre e fecha as portas da percepção e das oportunidades. Somos e nos tornamos, ao longo da vida, aquilo que acreditamos ser possível ser.

    Quem tiver cabeça para entender, entenda o resumo:
    Somos quem somos, mas o que somos só pode ser enxergado considerando o que queremos e, portanto, podemos ser

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