Carolina,
como ignorar quando a gente começa a pensar que não está tudo bem? Mas ao mesmo tempo, como é que a gente tem certeza que não tá enxergando errado? Acho que em muitos casos uma das primeiras lições que nós aprendemos na escola da vida cristã é que o mundo está errado. Tudo fica uma beleza com esse princípio em mente, porque temos certeza de que, se estamos do lado de Cristo, estamos certos, definitivamente certos. Acontece que conforme o tempo passa, parece que as coisas ficam menos claras. Isso não porque tenhamos diminuído em nada a nossa fé, continuamos crendo no que ensina a Santa Igreja Católica Apostólica Romana em cuja fé ainda queremos viver e morrer, mas porque a vida real acaba se afigurando com muito mais nuances, reais ou ilusórias, do que os princípios que aprendemos. O mundo parece menos preto no branco e ficamos em dúvida de como fazer sentido daquelas ideias em que acreditamos na vida real. Então aparece outro princípio da escola da vida cristã: não só o mundo está errado, mas você está potencialmente errado, porque está sujeito a uma míriade paixões, apegos, falsos raciocínios e toda espécie de circunstâncias obnubiladoras da verdade. "Puts", pensamos. E por vezes essa realidade da nossa cegueira se impõe de uma maneira desanimadora. Nós professamos crer no que ensina Jesus Cristo, mas ainda assim agimos contrariamente a Ele e agora, para piorar, não temos sequer certeza se um dia entendemos as verdades que ele ensina, em primeiro lugar.
Do alto dos meus dezessete anos, contudo, já me parece claro que há dois erros muito sérios a evitar quando estamos nesse impasse em que desconfiamos de nossa própria capacidade de ver. O primeiro é agir como se nós somos praticamente incapazes de conhecer a verdade, junto com todas as outras pessoas, e daí largamos mão de fazer juízo de valor sobre o que quer que seja. É daí, creio, que nascem os não-julgueis. Se o outro está tão convicto de algo tão errado e eu também poderia estar, segue que ninguém pode estar certo de nada e todos estamos perdidos nesse mundão de meu Deus, cada um fazendo o que parece melhor e que certeza tenho eu para poder dizer que o outro está errado? Um extremo é esse. O outro é quando nós acreditamos que nós não conseguimos enxergar e pensar com clareza, mas passamos a agir como se uma outra pessoa a quem admiramos ou estamos subordinados fosse dotada de uma luz especial e sempre soubesse e quisesse o que é melhor para nós. Quando nossa consciência se sente incomodada com alguma coisa que vem dessa pessoa, sem exitar muito a calamos, mesmo que insista, dizendo que nós e que somos burrinhos e não estamos entendendo. As vezes a própria pessoa é que diz que aquilo que dói é para o nosso bem. É daí, Carolina, que nascem as seitas e toda espécie de abuso moral. Um termo moderno para esse ato, quando a pessoa em quem confiamos aproveita maliciosamente dessa confiança para nos subjugar, é gaslighting.
Até aqui não te ajudei muito, mas prometo que doravante será diferente. Agora, começo a falar da saída desse labirinto tortuoso e sombrio. O princípio que coloca em seus devido lugar os dois princípios citados no primeiro parágrafo é o seguinte: a razão funciona. Sempre me surpreendo que a Igreja Católica seja talvez a única instituição do mundo da qual se escute esse adágio, graças a santo Tomás. Nós podemos confiar nos nossos sentidos e no nosso intelecto para saber a verdade sobre as coisas. Perceba que, então, todo aquele imbróglio diante do "será que o problema tá aí mesmo ou eu que estou doido?" desaparece diante de outra pergunta que leva a tranquilidade: "que razões eu tenho para isso?". De agora em diante, nós podemos sim emitir juízo de valor sobre as coisas e ações, porque é possível e probabilíssimo que estejamos certos se nosso raciocínio é de fato um raciocínio verdadeiro. Também, não precisamos mais ficar reféns de ordens que se nos afiguram absurdas, porque podemos conferir se há razões pelas quais não podemos fazer o que é ordenado, ou sugerido, ou a que somos convidados, enfim. A razão funciona. É interessante ver como defensores mais esdrúxulas ideias modernas não conseguem oferecer um argumento lógico para suas causas, enquanto que, quando confrontados com um legítimo silogismo, não conseguem apontar o erro, mas se limitam a discordar da conclusão. Ora, Carolina, de premissas verdadeiras só pode seguir uma conclusão verdadeira. A razão funciona.
Parando para pensar, na hora de tomar decisões, não é tanto uma questão de pesar prós e contras, mas sim de encontrar premissas, princípios, concretos e deduzir daí uma conclusão. No caso de um namoro, um dos princípios, por exemplo, que, como eu mostrei, vai do pe. Daniel ao Jason Everts é: namore alguém com quem você casaria hoje, do jeito que ela é e com o que ela tem. Nós sabemos, e até os pagãos e apóstatas tem uma boa ideia, do como alguém que quer casar tem que ser. Você só precisa apelar ao seu bom senso, com razões, para conhecer esses atributos.
"Mas, ó Inácio, você até agora não falou sobre se devo ficar considerando meus sentimentos ou não." Bem, não seja por isso: eu acredito que se teria que fazer uma distinção entre emoções e sentimentos. Tenho conhecimento nulo de psicologia, mas me parece evidente que essa distinção existe, embora talvez não com esse nome. Emoção pra mim é você estar apaixonada, alegre, com raiva, triste; todos nós sabemos que elas são voláteis e um péssimo motivo para tomar decisão se consideradas isoladamente. Ninguém acorda apaixonada todo dia, mas mesmo assim, havendo razões, se continua o relacionamento. Quanto aos sentimentos, eu gostaria de usá-los no sentido de "cara, eu tô sentindo que as coisas não estão bem" ou "estou te sentindo muito distante ultimamente". Eu acredito que a esses sim se deveria dar crédito, porque eles geralmente são baseados em razões que ainda não foram formuladas claramente. Nós "sentimos" que algumas pessoas nos amam, mas isso é diferente de uma emoção gratuita: se fomos analisar, facilmente acharemos ações delas que indicam com suficiente certeza que querem o nosso bem. Claro que nem a todo sentimento se deve dar crédito e exemplo clássico de um que muitas vezes se prova errado é "sinto que tal pessoa não gosta muito de mim". Talvez o problema esteja no fato de que gostar é bem mais subjetivo do que amar, mas sei lá. Além de ver se há razões por trás do seu sentimento, outra maneira bem confiável de ver se a ele se deve dar crédito é se outras pessoas estão achando o mesmo que você. Elas tem apegos, paixões e circunstâncias diferentes da sua, então se concordam com você em algo, provavelmente é porque há motivos.
Sei que não apresentei aqui nenhuma novidade, mas acredito e comprovo em mim mesmo que há poucas soluções mágicas para nossas confusões e dificuldades. A maior parte dessas situações vai se resolver com antigos princípios, mas que tínhamos esquecido de aplicar nessa situação. Foi isso que você fez por mim na semana passada e é isso que espero estar fazendo por você agora. Foi a sua inteligência colaborando com Deus que te trouxe até aqui, Carolina. Não precisas desconfiar muito dela se tudo indica que você está pensando corretamente.
Eu acredito, e podemos conversar mais sobre isso, que os seu sentimentos em relação ao Sebastião estão justificados. Nada do que você falou diminui o bem que ele fez por você, ou a disposição dele de estudar a sã doutrina e tornar a própria vida sã também. O fato é, contudo, que, objetivamente, ele não está preparado para casar. E tá tudo bem. Você sabe disso.
Ele pode ser mais do que é hoje, muito mais. Mas você não namora com o Sebastião do futuro, mas com o Sebastião do agora. Mas me parece, inclusive, que até o Sebastião do futuro te dá um pouco de apreensão. Com razão.
Se as condições são essas, Carolina, você não precisa se sentir obrigada a ignorar tudo isso porque ele tem conhecimento de teologia ou quer ser casto e ter uma família. Se até em relação a escolha de estado de vida em geral é necessário que nos perguntemos sinceramente "é isso que eu quero de fato pra minha vida?", quanto mais na escolha de uma pessoa ou ordem em particular. O fato de que ele é minimamente decente e católico não justifica muita coisa, não mais do que eu poderia me apresentar a um bispo para ser ordenado porque sou um homem batizado.
É necessário que você goste da pessoa, de verdade. E gostar não é aqui alguma emoção, mas sim aquele "sentimento" baseado em razões. O que ele fez para te agradar recentemente? Ele conversa com você ou só espera você parar de falar? Ele acha que é um direito dele ter você como namorada e que você só poderia terminar por causa de algum vício ou erro? Ele pede desculpas como alguém que errou? Ele tira o prato da mesa? Ele busca uma vida saudável? Quantas horas por dia ele passa falando sobre coisas ou lendo o que não condiz com seu estado de vida, em detrimento de seus deveres? Ele te elogia agradavelmente? É manso e prestativo? Essas são perguntas tendo em vista defeitos que conheço pessoalmente, também em meu pai, e que odiaria que uma possível namorada tivesse de lidar com.
Obrigado pela paciência de chegar até aqui, Carolina. Acredito, de verdade, em tudo que escrevi e digo que a maioria dessas ideias, graças a Deus não é minha. Espero que te ajudem, como me ajudam. Mesmo assim, se lembre que eu não sei tudo e tampouco entendo ou me expresso com a clareza que você, ou qualquer um com quem falo, merece. Nesse sentido, por favor, não dê nenhuma autoridade a nada que falei que te impeça de pensar sobre e questionar.
Apesar de ser uma carta, enxergue mais como uma conversa na qual falei bastante. Você tem o direito de fazer perguntas e elas seriam a minha alegria, porque me obrigariam a refinar minhas palavras e esclarecer o que acredito. Te desejo o melhor.
In corde Iesu,
Inácio Galvão, s.M
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+ A.M.D.G +
Inácio Galvão, s.M
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+ A.M.D.G +
Muito bom! Da próxima vez que eu sentir algo por alguém vou vir aqui pensar nesses conselhos.
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