quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Feliz

    O homem feliz faz coisas desnecessárias. 


    Nisso, é imagem do mesmo Deus que, num gesto da mais perfeita felicidade, se dignou ao ato mais desnecessário de que já se ouviu falar: criar o universo. Não te contam isso na escola, eu sei, mas não é nada mais do que a verdade dizer que eu e você somos todos seres desnecessários. Toda as montanhas, bactérias, estrelas e grãos de areia não acrescentam nada a Deus. Ele era tão pleno antes quanto é agora e quanto será depois que tudo isso acabar. Criou porque é feliz, tão somente.


    E o homem feliz? O homem feliz cantarola, brinca com o chaveiro em suas mãos, aprecia a vista, colhe uma flor... O homem, que é o único animal capaz de ser feliz, também é o único animal capaz de fazer arte: não é à toa. A arte é desnecessária, os enfeites são inúteis, os ritos não são práticos. Julgar que, só por isso, não são muito mais importantes do que todas os métodos e máquinas é algo tão absurdo que só poderia ser dito numa sociedade triste como a nossa. Nunca passou na cabeça do homem triste, tão orgulhoso de seus pés no chão, que ele foi feito para o Céu, para algo tão "inútil" quanto a contemplação... 

    É manter a cabeça no Céu, justamente, que faz com que o mundo possa despencar sob nossos pés sem que isso nos abale e que saibamos enxergar tudo com a serena despreocupação que é a marca dos santos e a condição essencial do bom humor.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ir à missa