Despertei. Meu quarto não tem cortinas, por decisão ideológica: que seja o Sol a me acordar, todos os dias, como foi por tanto tempo, desde o começo dos tempos.
Antes de levantar-me, fiz o sinal da Cruz. Diferente dos gregos e de seus descendentes, que unem indicador, polegar e dedo médio, faço-o com a mão espalmada. Sou latino, minha herança vem de Roma. Ao desenhar sobre meu corpo o Doce Lenho, faço como fizeram todos aqueles que, numa longa cadeia hereditária, me unem aos Apóstolos de Cristo.
Não demorou e, como todos os dias, fui fazer a barba. Gosto de pensar que, se me barbeio, não é por uma decisão de décadas atrás (que já me uniria a tantos militares mundo afora), mas por um costume que me faz semelhante a Júlio César e Cícero. Afinal, também eles barbeavam-se todos os dias.
No espelho, reparo que tenho alguns fios avermelhados na barba. De que lugar do mundo terão saído meus ancestrais ruivos? Percebo que meus cabelos estão caindo. Cada vez mais, vou ficar parecido com meu pai e com o pai de meu pai…
Vou andando para o trabalho, usando as mesmas juntas que há milênios, algum antepassado meu usou para ir buscar água na Mesopotâmia. O café da manhã é um copo de leite e pão com ovos mexidos, em memória do homem que primeiro domesticou as vacas, o trigo e as galinhas.
Na minha seção, vi que minha identidade militar estava pronta. Nela, o meu nome: Inácio Galvão. Inácio, assim como era Ignazio o fundador dos Jesuítas, Inácio o padre morto em alto mar por piratas calvinistas e Ιγνάτιος aquele que, ao ser devorado pelos leões, dizia ser “trigo de Cristo”. Galvão, Aspirante Galvão, assim como era meu tio e, antes dele o meu avô. Galvani também foi o inventor da pilha e Galwain, o cavaleiro da Távola Redonda dos contos bretões.
Fui à missa, como já fui tantas vezes. Com minha mãe, com meus avós, com meus amigos, aqui, n’além mar… Aqui e lá, antes e agora, as mesmas palavras, os mesmos gestos… A mesma certeza de estar vendo aquilo que ninguém poderia imaginar e recebendo aquilo que ninguém jamais poderia pedir. Canto o salmo, como fizeram os monges em Núrsia e os judeus no exílio da Babilônia. O padre ergue a Hóstia: é Cristo. É Cristo que está ali, Ele que, há dois mil anos, foi o primeiro a celebrar a missa.
Almoço arroz com strogonoff de frango e batata palha. O arroz dos árabes, o strogonoff dos russos e dos brasileiros, a batata dos incas. Almoço seguido de uma soneca, de uma siesta, costume espanhol, mas nem por isso menos nosso.
À tarde, despedida de um tenente. Todos os oficiais reunidos num Salão de Honra, circundando o comandante e o tenente. Histórias passadas, história construída e história revivida. Comprimentos, honras, votos de sucesso. Difícil não pensar em todo o peso histórico dessas cerimônias que, tão certo quanto certo é certo, são anteriores até à própria história. A lembrança dada é madeira esculpida, tal qual poderia se dar de presente há vinte mil anos.
Janto frango assado, numa cumbuca, que nem os indígenas. Bebo suco de uva. Quantas vezes já não quis jantar frango assado e que satisfação não é poder fazer isso agora. Ouço músicas que ouvia há alguns anos e sinto o mesmo que sentia. Escrevo deitado na cama, como tantas vezes já fiz.
Como me sentir sozinho? Como posso estar sozinho quando estou na presença dos meus sonhos do passado e das memórias do meu futuro? Meus ancestrais vivem através de mim, uma multidão incalculável me assiste, ansiosa pelo que se fará da herança que me legaram…
e eu? Com quem passarei adiante o legado de nossa grandeza?
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