sábado, 27 de julho de 2024

Da Ignorância

    Como já é costume, começo por destrinchar etimologicamente a palavra: ignorância vem de “in-“, sufixo de negação, + “gnarus, “sabedor”, derivado de “gnoscere”, “saber”. Se nossa língua fosse como o alemão, provavelmente diríamos, ao invés de “ignorância”, algo como “nãosaber”. Nãosaber este que, com efeito, estava entranhado na vida de nossos antepassados. Antes do Google, antes dos jornais, antes das bibliotecas, a única maneira de saber era ver ou encontrar quem viu. Imaginem só?

    Hoje, cada vez mais, temos um acesso quase perfeito à informação: em poucos segundos consigo acesso a qualquer informação sobre qualquer coisa que seja minimamente pública, desde conhecimentos científicos até à vida das pessoas. Sem muita cerimônia, consegue-se até acesso a conteúdo envolvendo o que outrora já foi tido como o que havia de mais íntimo. Esse é o mundo em que vivemos. Será que é melhor assim do que antes?

    Advogo aqui que não, por um motivo muito simples: o acesso imediato à informação nos tolhe o trabalho de descoberta que, na maioria dos casos, é o que mais importa. Explico-me. Hoje, sem sombra de dúvida, tenho mais notícias de pessoas com quem nunca troquei uma palavra do que meus avós, às vezes, tiveram de seus irmãos por anos. Que quantidade de informação não significa qualidade de relacionamento, isso todos o sabemos. Mas há algo a mais aí, que é que o acesso à informação nos dá uma falsa impressão de intimidade. Posso acompanhar o dia a dia de alguém com quem não converso há anos sem nem perceber, porque já estou “informado”. De que vale isso? Nós todos não trocaríamos, de bom grado, um mês vendo posts por um almoço juntos? 

    Um perfil de Instagram nos dá a falsa impressão de que conhecemos a pessoa, falsa impressão que, por vezes, ajuda a pré-conceituar uma categorização que só existe no virtual. Virtualmente, pode-se ser apenas atleta ou apenas poeta, ou ambos. Pessoalmente, contudo, não somos nossos hobbies, nem nossos textos, nem nossos corpos: somos nós, pura, simples e complexamente. 

    Há algo de especial nas relações não instagramáveis, em ter espaço para a imaginação, o encantamento e a descoberta ou até o esquecimento e o reencontro. Perdemos muito quando ganhamos tanta informação gratuita. Perdemos, também, quando damos tanto a quem, no fundo, nem quer saber. Sinto saudades de um tempo mais simples que eu não vivi, quando havia tempo para tudo, tempo para plantar e para colher, para nãosaber e para descobrir. Hoje, tudo é tempo para tudo e, por isso, não há tempo.

    Zero também é número, o silêncio também é palavra e a distância, muitas vezes, solidifica proximidades. Quero nãosaber!

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