quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Alocução por conclusão do Ensino Médio

Maj Al Galvão, 08/12/2022

    

Caros colegas,


    Quando levanto os olhos, vejo, à minha frente, mais de quinhentas pessoas. Quinhentas pessoas com as mais diversas histórias, origens e jeitos. Uma diversidade, sem exagero, que só se encontra aqui. No entanto, se as diferenças entre cada um de nós são muitas e grandes, maior ainda é aquilo que nos une: agora, e como foi nos últimos sete anos, é a boina garança; em menos de uma hora, será a saudade. Saudade que não poderia deixar de vir se não acompanhada de uma tempestuosa expectativa. Expectativa, uma vez que sabemos, no fundo de nossos corações, que jogar a boina para o alto fará com que caia pesadamente sobre nossos ombros as responsabilidades da vida adulta. Expectativa, pois, daí em diante, não sabemos exatamente o que esperar. Pergunto a todos: quando não nos pudermos mais chamar alunos, o que será de nós? Com efeito, se quisermos prever o futuro, é necessário conhecer o passado.

    Nossa história no Colégio Militar de Brasília teve início numa segunda-feira muito singular: era o primeiro dia da semana 0. Para alguns, não faz nem um ano; para outros, lá se vão quase sete. Para todos, contudo, foi o primeiro dia de uma experiência muito especial que transformaria, para sempre, as nossas vidas. Foi então que bradamos, pela primeira vez, aquelas palavras ininteligíveis que, para nossa surpresa, não seriam menos ininteligíveis depois de sete anos. Sim, ninguém faz a menor ideia do que é “Zunga zunga zunga” ou, menos ainda, do porquê isso se segue de “cate marimbau”. Mas nós e todas as fibras do nosso corpo, sabemos muito bem o que significa bradar o Zum Zaravalho. E é por isso que dói tanto que hoje seja a última vez. Aprendemos, desde essa primeira semana, que, transposto aquele portão, não éramos mais apenas estudantes. Éramos - e quantas vezes cantamos isso, sempre para orgulho de nossos pais - “a promessa de mais glória na história do Brasil”.

    O desenrolar da história nós todos já conhecemos muito bem. Vivemos tão intensamente os anos que se seguiram, em meio a aulas e AEs, ensaios, apresentações, treinos, jogos, festas e formaturas que qualquer tentativa de resumi-los é uma traição às profundas marcas que deixaram em nós. Passamos por tanta coisa! Tivemos a rotina, que, mesmo com os desafios da adolescência, nos trazia tanta segurança e alegria ser subitaneamente esfacelada pela pandemia. E foi difícil. Difícil, mas em nenhum momento estivemos sozinhos: contávamos com grandes profissionais.

    Professores, caros mestres e doutores: o clichê agora seria agradecer por terem trabalhado incansavelmente, mas eu não farei isso. Não farei, porque nós sabemos que o trabalho desses últimos anos não foi sem cansaço, pois que nós o víamos transparecer pelos rostos fortes de cada um. Cansaço pelo esforço hercúleo com o qual os senhores perseveraram fiéis no cumprimento do dever. É verdade que a pandemia mostrou que não há super-homens, que todos são vulneráveis, mas foi por ver contrastados todos os empecilhos à perseverança magistral, que os senhores merecem ser os nossos heróis. E merecem toda a nossa gratidão.

    O mesmo deve ser tido a todos os membros do Corpo de Alunos. Se os professores, com efeito, eram nossos mestres, esses foram os nossos formadores. Por isso, e digo isso de todo o coração, a pintura da vida de cada um aqui contará com tons que só nos são possíveis graças à luz que os senhores foram em nossas vidas. Muito obrigado por terem sempre acreditado em nós.

    Meus nobres colegas, meus irmãos de farda: nossos nomes estão na placa. Acabou. Nós, que vimos tantos e tantas passarem por esta Jovem Casa, também somos agora obrigados a nos ver passar. Passar e deixar muito para trás. Só atravessaremos estes portões, que nos viram crescer, com crachá de visitante. Que este sentimento tão terno que agora preenche nossos corações não seja como âncora, que nos imobiliza, mas sim como raiz, que nos traz vigor. Que nós, enraizados nestas terras de Brasília e com sangue eternamente garança correndo em nossas veias, saibamos transparecer em todas as nossas ações aqueles ideais que prometemos cumprir, do LIDER. 

    Depois desta minha fala, prestemos atenção ao que dirão aqueles que estão acima de nós, e que estiveram por trás dos melhores momentos de nossas vidas. Se vivermos dessa maneira, não marcharemos mais rumo ao desconhecido, nosso futuro será certo: se vivermos dessa maneira, não seremos, doravante, só “a promessa de mais glória na história do Brasil”. Seremos, lançadas as boinas e assumidas as responsabilidades da vida adulta, cada um de nós, já hoje a *realização* da glória do Brasil. Zum Zaravalho.

    E uma última coisa: não há como escapar da saudade. Afinal, já estava escrito, não estava? “Um dia o pranto há de nossos olhos inundar / ao chorarmos a saudade do Colégio Militar”. E esse dia chegou. Zum Zaravalho.                              

A. M. D. G.
 

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