sábado, 3 de maio de 2025

Missa de Sábado

    Quis ir à missa de sábado. No Instagram da Paróquia, vi que haveria missa às 19h30 na Comunidade São Francisco. Coloquei o endereço no Maps e fui.

    A rua da igreja era de terra. Como convém, na frente de quase toda casa, algumas de madeira, havia alguém pra fora tomando a fresca. Todos viravam a cabeça para olhar o homem branco de tênis branco e moto branca, que lutava para conseguir estacionar na ladeira.

    Estacionei. 19h18. Na frente da igreja, três senhoras. Para confirmar, perguntei se haveria missa às 19h30. Duas pareceram não entender a pergunta. Uma respondeu: “o padre disse que vinha, estamos esperando ele.”

    Entrei na igreja. Novamente, cabeças virando em direção ao alienígena (aliena: outro + gens: povo), indicando aquilo que eu desconfiava desde que virei naquela rua: meu lugar não era ali. Apesar de querer, não tirei foto do crucifixo torto e enferrujado no centro do altar, para que meu iPhone branco não fosse mais uma testemunha da minha origem.

    19h30. O padre não veio. Mandou, ao invés, dois seminaristas e uma âmbola com hóstias consagradas. Jesus também mandou seus apóstolos de dois em dois. Um deles era demasiado compenetrado e lia com dificuldade. Deparando-se com “cingias” no Evangeliário e desistindo de tentar pronunciar, simplesmente pulou a palavra. O outro era mais carismático e com certeza já ouviu que tinha “o dom da palavra”, já que pregava com desenvoltura e conseguiu fazer a homilia padrão que se houve em tantas igrejas, que aborda vários temas e nenhum o suficiente.

    Nos bancos, apenas um homem adulto. Seis ou sete senhoras, que deveriam ser as catequistas, e cerca de 25 crianças e adolescentes, que, sem dúvidas, eram os catequisandos. Como são esses pais que mandam os filhos para a igreja sem que eles mesmos a frequentem? As crianças riam e conversavam e mais de uma levou bronca da catequista no fundo da igreja, para alegria das demais.

    Rezei. Comunguei de hóstia partida ao meio, Christus totus. Fim da celebração.

    Fui embora logo. Não queria ouvir perguntas e nem dar respostas, nem nada que pudesse me fazer menos estranho à vida da comunidade e, talvez, correr o risco de que se importassem comigo.

    De uma rua, ao lado, vi o shopping. Não esperava. O palácio maior que todas as igrejas, solitário, triunfante! O orgulho da nossa civilização que nos dá de tudo, menos um motivo para olhar para cima. 

    Verdade seja dita, aquela capela da Folha 35 está mais perto de Nazaré do que do shopping. Aquele bairro pobre, tão excluído que sequer se lhe afigura a ideia de estar em algum lugar da vida urbana, ainda que seja à sua margem. Sequer são “os cachorrinhos que comem as sobras da mesa do senhor”. Benditos esses extremos do nosso mundo, fora dos quais é tão difícil encontrar a Deus!

    Jesus, com efeito, nasceu fora da cidade e, quando rezava, ia para longe dela. Também na hora de se oferecer em sacrifício, quis que fosse fora dos muros de Jerusalém. 

     Lembrei que, se São Francisco, ali cultuado, fosse vivo hoje, ele usaria havaianas, como todas aquelas crianças. Talvez até camiseta de time.

    Os apóstolos, por sua vez, falariam um português tão errado que doeria ao meus ouvidos recém-saídos de Brasília. Provavelmente não estariam naquela igreja comigo, por não se sentirem, com aquela integridade de homem bruto, parte do mesmo grupo que os clérigos de frases complexas e palavras adocicadas. Estariam sentados na frente de casa, tomando a fresca, descansando da pescaria de hoje.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ir à missa