sexta-feira, 2 de agosto de 2024

CATOLICISMOS

Católicos e Hereges

O que é ser católico? Rios de tinta podem correr sobre esse tema e abordá-lo sob

infindáveis perspectivas e com as metodologias mais diversas, mas, como já é costume, vou

tentar responder à pergunta geradora com uma pincelada de história, uma pitada de filologia e

uma boa dose de sociologia. Ainda que eu não tenha nem diploma e nem saiba citar autores

renomados, acredito que tenho algo que falta em muitos de quem se esperaria um escrito com

esse tema: a liberdade intelectual de um mero leigo, ignorante da erudição acadêmica e, talvez

por isso, mais próximo da experiência comum do real.

“Católico”, por si só, já é um termo bem audacioso, cuja própria enunciação já é um

argumento em favor de quem quer que se arrogue esse título. Sua origem grega é καθολικός,

junção de duas palavras, κατά (conforme, segundo) e ὅλος (inteiro, todo), que geralmente é

traduzido por “universal”. Acontece que o termo “universal”, com toda a sua pretensão sideral

e genérica, por si só não é capaz de deixar tão claro a mensagem que se pretendia passar

quando esse termo foi cunhado por cristãos. Chamava-se “católico”, nesses primeiros séculos

de cristianismo, aquele que queria dizer que não estava inventando moda, que fazia que nem

(κατά) todo mundo (ὅλος). Mais à frente, no quinto século, São Vicente de Lerins irá dizer em

seu Communitorium que a Fé da Igreja é aquilo “quod ubique, quod semper, quod ab omnibus

creditum est”, “que todos, sempre e em todo lugar creram”. O “católico” surge em

contraposição ao “herege”, que é aquele que quer ser diferente da totalidade, escolhendo

(αἱρέω, hereo) aquilo em que quer acreditar.

Eis, pois, a cosmovisão identitária base do cristianismo, em cima da qual toda a nossa

história foi construída. Desde as primeiras décadas, a maior ofensa que se pode dizer a um

pretenso seguidor de Cristo é dizer que ele está inventando moda, adicionando algo ao

Evangelho, querendo imiscuir pensamentos e práticas particulares dentro da universalidade da

Igreja. Mesmo sem usar exatamente esses termos, toda contenda teológica da história, ainda

que fora dos ambientes do que hoje se compreende por Igreja Católica (Apostólica Romana),

consiste em querer demonstrar que você é o católico, o representante do senso comum da Fé,

e que o outro é o herege, o desviado excêntrico.

Como se vê, quanto maior a pretensão do termo “católico” em conferir a marca

indelével de uma verdade evidente e universalmente cognoscível, mais evidente fica a

vacuidade do termo e a incapacidade de ele simbolizar algo além de um anelo subjetivo de

estar confortavelmente no lado certo. Acreditar naquilo que o foi por todos, sempre e em todo

lugar transmite uma paz que seria perfeita se não fosse simplesmente mentirosa. Noções

básicas de história da Igreja fazem ver que nunca houve crença ou prática verdadeiramente

universal, de modo que, em certo sentido, a nada se pode chamar propriamente católico. Pelo

contrário, houve épocas que o que entrou para a história como a posição “católica” era, na

verdade, uma opção minoritária e restrita. Percebendo isso, mas sem querer abrir mão dessa

cosmovisão de “católicos” e “hereges”, cristãos de todas as épocas esboçam os limites da

catolicidade, com outros parâmetros além dos que a própria palavra e visão tradicional

implicam, sem perceber que colocar fronteiras no universal é simplesmente fazer com que o

que quer que esteja dentro das cercas não seja mais universal.

O lado vencedor

Apesar do imenso furdunço que é a história do cristianismo, hoje entende-se que

católico é aquele membro da Igreja Católica, ou seja, aquela pessoa que, submetida a uma

hierarquia eclesiástica ligada institucionalmente ao bispo de Roma (Papa), recebe por esse

meio os sacramentos e a doutrina. É desse tipo de gente que, segundo dados da Santa Sé,

compõe-se 59% dos cristãos e 17,37% da humanidade, somando cerca de 1,390 bilhão de

fiéis.

Para discernir se alguém ou algum grupo é católico ou não é, o caminho mais fácil e

comum é verificar se há adesão doutrinária à autoridade romana em questões historicamente

disputadas, tais quais a presença real de Cristo na Eucaristia, a divisão hierárquica da Igreja, a

Imaculada Conceição da Virgem Maria, a veneração dos santos etc. Todavia há de se

considerar que fazer parte da Igreja, na opinião dos mesmos teólogos que, ao longo dos

séculos, definiram todas essas grandes doutrinas, é muito mais do que meramente não se opor

formalmente a ela em questões teológicas historicamente disputadas. Fazer parte da Igreja é

estar intimamente unido a Cristo, o que pressupõe uma série de dos and don’ts até bem

específicos que, em cada época, a Igreja enquanto instituição hierárquica fez questão de

afirmar com atos e omissões.

De acordo com a doutrina católica, a vida de união com Deus é denominada “estado

de graça”, e se a perde pelo cometimento de um único ato que seja pecado mortal. Quem não

está em estado de graça também não faz parte da Igreja, na medida em que o pecado constitui

uma cisão completa do Corpo Místico de Cristo, e, portanto, está necessariamente condenado

ao inferno. Dadas as consequências terríveis do pecado, que mata a alma, nada há de

surpreendente em encontrar nos cristãos mais dedicados de todas as épocas esforços

desmedidos para combatê-lo não só na própria alma, mas também nas almas alheias.

Semelhante é a questão da Fé: para a teologia católica, basta uma única recusa de crer num

aspecto da doutrina para não se ter mais fé sobrenatural e ter suas crenças na condição de

mera opinião.

Justamente por essa questão importantíssima da noção sobrenatural de Igreja é que se

pode falar que há falsos católicos, pessoas que, mesmo tendo práticas católicas, ou até mesmo

ocupando cargos dentro da Igreja, não só não fazem parte dela de fato em razão dos seus

pecados, como constituem-se verdadeiros inimigos de Cristo, considerando que até mesmo

uma vida aparentemente virtuosa a níveis heróicos é, pela doutrina, abominável diante de

Deus se falta a adesão à doutrina romana toda inteira, pelo menos implícita e demonstrável

por meio da “comunhão” com o clero institucionalmente reconhecido. Naturalmente, é

possível e até comum, como irei demonstrar mais adiante, que mesmo uma vida sacramental

intensa não valha de muita coisa no sentido de garantir a integridade da doutrina e, portanto, a

catolicidade dos envolvidos.

A vida católica, nesse sentido, é eminentemente uma vida de virtudes dentro do dito

Seio da Igreja e, para além de documentos papais (raríssimos antes da segunda metade do

século XX e, crescentemente, ainda mais antes) e demais pronunciamentos de Roma, o que

influencia de fato a vivência e a mentalidade católica são os santos. Por meio do processo de

canonização, a Igreja carimba a vida e obra de um indivíduo com um selo de “aprovado”, para

que, por todos os séculos, seguir seus passos e ouvir seus ensinamentos seja tido como

caminho reto e seguro até a pátria celeste.

A vida dos santos é matéria prima de reflexões teológicas, serve como exemplo

prático da doutrina e, de quebra, decora igrejas com imagens e fomenta festividades locais.

Além disso, é importante lembrar que muitos dos santos, mesmo em vida, foram

tremendamente influentes, destacando-se nas cenas políticas e doutrinárias de sua época e,

não poucas vezes, fundando congregações e formando, com suas particularidades, dezenas de

milhares de homens. O alto clero da Igreja tem o poder de falar em nome de Deus, mas vê-se

que, na história, ele geralmente se limitou a aprovar e difundir o que outros indivíduos, mais

audaciosos, falaram a partir de sua amizade com Deus, tomando suas palavras e ações como

medida segura do que se deve fazer ou evitar.

Há quem tente negar que o chamamos oficialmente de catolicismo é fruto muito mais

da vida e obra grandes disruptores do status quo de suas épocas do que da doutrina

propriamente dita (catecismos, documentos papais e concílios), desejando um catolicismo

mais intelectual e almofadado, livre dos excessos de almas apaixonadas que não se

preocupam tanto com estrutura da argumentação, política institucional e demais nuances

próprias de um homem das ciências. Não há todavia, como fazê-lo. A história da Igreja é a

história dos grandes homens e daqueles que, inspirados por eles, tentam seguir-lhes os passos.

O santo que ensina o doutrinador, não o contrário.

Quem é católico?

Segundo a visão teológica hegemônica, ser católico, mais do que tomar parte em

certas atividades eclesiásticas ou mesmo viver uma vida de virtude, é crer na doutrina da

Igreja. A título de curiosidade, referencio que há um padre canonizado (esqueci agora o

nome) que vivia uma vida abertamente depravada durante toda a sua vida. Como foi, pois,

elevado a glória dos altares? Por ocasião da perseguição dos calvinistas franceses aos

católicos, ele foi instado a renunciar a um dogma da Fé, ao que respondeu “posso ser safado,

mas não sou herege”, sendo posteriormente morto e tido por mártir e santo. Contudo, se há

alguém que se recusa a crer em algum artigo da doutrina definida pelo Catecismo, por

exemplo, a própria doutrina vai ser curta e grossa em dizer que essa pessoa não é católica e

dificilmente escapará de passar a eternidade com o demônio.

Para exemplificar, vejamos como o Cisma do Oriente, que até hoje divide os

sucessores dos apóstolos entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas, se deu entre

comunidades que, para todos os efeitos, partilhavam a mesma vivência. Ambas as partes

tinham a mesma Fé e a mesma prática, desenvolvidas ao longo de um milênio de unidade e, se

bem que se possa argumentar que os motivos foram mais políticos do que espirituais, a

excomunhão mútua entre o Papa e os patriarcas orientais foi justificada tão somente por uma

discordância em um ponto aparentemente tão abstrato e de pouca relevância quanto à maneira

que se dava a procedência entre as pessoas divinas da Santíssima Trindade.

Essa noção de que ser parte da Igreja depende da adesão integral e convictíssima a um

sistema teológico complexo e altamente erudito precede em séculos o Cisma do Oriente,

remontando aos primeiros dias de cristianismo, assim como o sucede até os dias de hoje, de

modo a ser verdadeiramente indissociável ao catolicismo. Inúmeros exemplos poderiam ser

dados nesse sentido para mostrar que a unidade da Igreja foi compreendida em função daquilo

em que se acredita, às minúcias, de modo a justificar que mesmo os maiores hierarcas

poderiam ser considerados como membros de outra igreja e sofrer as devidas represálias

institucionais se falhassem em concordar com um só ponto teórico de doutrina.

Dito isso, gostaria de trazer uma reflexão: dizer que crê é o mesmo que crer? Para

trazer essa reflexão a uma questão de ordem bem prática, falemos de moral sexual. O papa

Pio XII, em sua encíclia Castii Conubii, assim como o papa Paulo VI, em sua Humanae Vitae,

definiram, segundo um pensamento teológico precedente, que o uso de qualquer método

contraceptivo é gravemente imoral, ensinamento reforçado por uma série de teólogos e

documentos do Vaticano desde então. Repito: gravemente imoral, assim como matar alguém,

cuspir na cruz ou faltar missa de domingo. Se perguntado sobre o tema, qualquer católico que

queira ser coerente com sua necessária submissão à Igreja em questão de moral, não vai poder

dizer senão que concorda, que crê nesse ensinamento. Curiosamente, a história aponta que

Paulo VI enviou o rascunho da Humanae Vitae para todos os bispos do mundo, mas apenas

dois responderam aprovando-a. E o resto? Não podendo dizer que discordava, escolheu,

então, ignorar…

Olhemos, no entanto, nas nossas igrejas, nem mesmo para os fiéis, a quem, apesar de

terem praticamente todos acesso instantâneo à internet, ainda se poderia tentar excusá-los

alegando ignorância, mas olhemos para os clérigos, que gastaram, no mínimo, oito anos de

suas vidas com a única finalidade de estudarem doutrina católica: eles realmente levam isso a

sério? Pode um padre ver que a quase totalidade de seus fiéis afundados numa prática que, a

Igreja o ensina claramente, vai necessariamente fazer com que passem a eternidade no lago de

fogo e não pregar sobre isso em termos claros, inequívocos e ser intransigente quanto às

conclusões lógicas, custe o que custar? Se crer significa algo, só pode significar agir como se

algo fosse realmente verdade. De quem diz crer e, na prática, escolhe ignorar o ensinamento,

não se pode dizer senão que é um farsante, um hipócrita e que sua devoção não é senão um

espantalho. Não sou eu quem o digo, é Jesus Cristo, a Igreja e os santos.

Práticas e crença estão intimamente ligadas, o que é confirmado em toda a história da

Igreja, por exemplo, pelo adágio lex orandi lex credendi. No mesmo sentido, é demonstrado e

demonstrável que vidas diferentes implicam e pressupõem visões de mundo diferentes, a

partir de que podem ser concebidas doutrinas distintas, não o sendo somente por desinteresse

ou imperícia dos envolvidos. A unidade institucional da Igreja é preservada teologicamente

fingindo que a negação prática, nas ações, não é o mesmo ato, em contextos diferentes, que a

negação formal, por escrito e até mesmo a negação por escrito pode ser tolerada para

preservar essa unidade exterior concebida modernamente.

É graças a essa jogada, no fundo, política que nós hoje temos diversas visões

contraditórias dentro da unidade institucional da Igreja (ou seja, sob a mesmo órgão de

administração eclesiástica), que não se contradizem somente umas às outras (caso em que se

poderia alegar que não é nada grave, que há espaço na Igreja para diversidade de opiniões),

mas que são irreconciliáveis com aquilo que já foi definido como doutrina católica, como é o

caso da imoralidade do uso de anticoncepcionais ou outros que mais e mais graves que

adiante se verá. A consciência do tamanho da Igreja e a descentralização do fluxo de

informação favorecido pelos meios de comunicação, aliados à necessidade política de se

manter a unidade institucional tornou impraticável, há décadas, aquela pretensão de

hegemonia doutrinária dos últimos dezoito séculos.

High church, low church and everything in between

Conformistas e entusiastas

Trato agora das diferentes vivências do ser católico, as quais pretendo dividir em duas

tendências de pensamento, que não são exatamente opostas: a conformista e a entusiasta. Na

verdade, essas duas tendências estão presentes não só em grupos católicos e na Igreja como

um todo, mas também em qualquer grupo, toda instituição e, no fundo, dentro de cada um de

nós. Para dar uma definição, digo que o conformista é aquele que prefere manter o status quo

a ameaçar a unidade, que prefere ter paz a ter razão, errar com todo mundo do que acertar

sozinho. O entusiasta, por outro lado, não teme ser diferente dos demais, pois tem claras em

sua mente ideias que toma por verdade indiscutível, busca que suas ações reflitam essas

crenças e está disposto a ser coerente com elas custe o que custar.

Cabe dizer que ser conformista ou entusiasta é muito mais uma questão de postura do

que de aderir a esta ou aquela crença. No meio católico de hoje, por exemplo, o status quo é

repleto de ideias que já foram tidas por vanguardistas e revolucionárias, assim como vimos

que a doutrina católica hegemônica sempre foi escrita por entusiastas.

A unidade eclesiástica, que já foi enxergada em termos doutrinários, hoje é, na prática,

enxergada somente em termos administrativos. Ser católico, então, deixa de ser uma questão

de adesão integral a um sistema teológico complexo e vida de virtude, como vimos, e passa a

ser questão de meras formalidades exteriores. Um determinado clérigo pode ignorar

abertamente, ou até mesmo contradizer com sua vida e sua fala vários pontos da doutrina

católica, mas, se continuar tendo boas relações com seus superiores e pares, indo nas

concelebrações e pagando as devidas taxas, dificilmente terá alguma sanção que constate que

a crença dele e a da Igreja são incompatíveis.

O mesmo vale para os fiéis: não se concebe, a nível institucional, interpessoal ou

autoconsciente que é plenamente possível ir para a missa com frequência, comungar, rezar o

terço, fazer obras de caridade e até mesmo se confessar sem que nada disso te faça um

católico de acordo com a visão teológica tradicional. A essa altura, reforço que doutrina e

virtude são indissociáveis na visão católica de todos os séculos: ignorar a doutrina é pecar, o

pecado nos separa de Deus e, sem Deus, não há virtude real possível (o inferno está cheio de

boas intenções).

A religião da imensa maioria das paróquias de hoje ainda é um catolicismo

inconsciente do caráter mais distinto da catolicidade face aos diversos grupos protestantes: a

historicidade. A Igreja não é a única instituição que escolheu rejeitar seu passado, mas, de

todas, é a que mais sai perdendo com isso, justamente na medida em que o maior argumento a

seu favor é a coerência que perpassa os séculos e as nações. Há coerência entre a maneira

moderna de se viver a liturgia, horizontalizada, dessacralizada, descomunitarizada e a maneira

histórica? O véu umeral e as ministras da eucaristia fazem parte do mesmíssimo sistema de

crenças? Não digo que o século XX seja o primeiro a ver hegemônica uma forma de

catolicismo incoerente com seu passado em algum nível, mas foi o primeiro a ver uma

descontinuidade litúrgica, devocional, artística e até doutrinária tomada como projeto pessoal

da administração eclesiástica até seu mais alto grau.

No meio disso tudo que a maioria de nós nasceu, em ambientes cuja própria

“renovação”, pouco a pouco, foi dando lugar ao espírito de decrepitude das nossas decadentes

comunidades paroquiais. Decadentes pois os avós são maioria, os filhos mal têm filhos e os

poucos netos que se tem já nem batizados são, ou, no máximo, frequentam catequese só para

constar. Há exceções, mas quem vai negar que essa é a regra? Nas homilias, pouco se ouve de

doutrina ou de história e a catequese, que também deveria tratar desses temas, não poucas

vezes é conduzida por mulheres de meia-idade altamente despreparadas. A arte sacra (música

e arquitetura) é sofrível, os padres são mais burocratas ou ativistas do que pastores… Todo

mundo sabe bem como é.

Nesse contexto, em que que a maior virtude a ser buscada é não se destacar de um

todo medíocre a fim de não prejudicar a “unidade”, surge um movimento heterogêneo de

entusiastas: o conservadorismo-tradicionalismo. Claro que há questões bem importantes que

diferenciam o conservadorismo de um Bento XVI de um tradicionalismo sedevacantista, mas

a narrativa dos que aderem a algum ponto desse espectro é a mesma: achei no passado da

Igreja um tesouro que “eles” queriam esconder de mim. “Eles” podem ser a teologia da

libertação, os modernistas, os revolucionários, os ultramontanos, a fumaça de Satanás ou

qualquer conceito abstrato que calhe personificar como inimigo.

O entusiasta conservador-tradicional gosta de ler, ou pelo menos de citar, encíclicas,

livros de santos, concílios e tratados teológicos do século passado. Ele crê num passado

idílico de pureza doutrinal e não consegue entender porque a Igreja abriu mão de seu tesouro,

porque os padres não pregam mais como Santo Afonso, porque as missas não são mais como

as do Padre Pio, porque não se ouve mais Mozart nas igrejas… Quanto à moral e à fé, ele se

orgulha de não ser um relativista, afinal “o que era pecado ou verdade ontem continua sendo

pecado ou verdade hoje”. Esse relativismo é um de seus maiores inimigos, porque confunde

os fiéis, afasta da sã doutrina e não demora muito para matar a alma. É o

conservador-tradicional que, numa corrente contrária à da Igreja institucional de hoje, se

alegra em chamar os outros de hereges e lembrar do tempo das excomunhões e inquisições.

Quando esse tipo de fiel, sozinho ou em grupo, começa a levar realmente a sério

concepções doutrinárias tradicionais sobre o que é o pecado e quais ações constituem pecado

e portanto busca um afastamento radical do que é considerado uma “vida normal” por pessoas

mais conformistas de dentro e fora da Igreja, ele facilmente é acusado de sectário, de

extremista. Essas crenças e práticas inflexíveis, “afastam as pessoas de Cristo”, “são

contrárias à caridade”. Só que quem acusa esquece que ele é um entusiasta e que, na verdade,

a história do cristianismo foi escrita por entusiastas.

O cristianismo primitivo, ou seja, desde a fundação da Igreja até o Édito de Milão em

313 d.C, tinha muitas características do que hoje se chamaria seita. Era composto por

comunidades fechadas e extremamente rigorosas, bem diferente do que é hoje. Só poderia

participar da missa quem fosse batizado e a preparação para o batismo poderia demorar anos

passando por situações que a mentalidade comum de hoje abomina: “doutrinação”, “privação

de sono”, “privação de alimento”, “exclusão social”... Caso pecasse gravemente, geralmente

com sexo fora do casamento ou apostasia (caracterizada por jogar um punhado de incenso

numa fogueira dedicada ao imperador romano), o fiel poderia ser expulso da comunidade e

passar anos ou até décadas para ser readmitido novamente, com penitências que variavam

entre não ingerir nunca mais alimentos de origem vegetal, vestir uma túnica rude e cobrir-se

de cinzas, só comer uma vez ao dia… Bem extremista, não é?

A falsa concordância

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