Católicos e Hereges
O que é ser católico? Rios de tinta podem correr sobre esse tema e abordá-lo sob
infindáveis perspectivas e com as metodologias mais diversas, mas, como já é costume, vou
tentar responder à pergunta geradora com uma pincelada de história, uma pitada de filologia e
uma boa dose de sociologia. Ainda que eu não tenha nem diploma e nem saiba citar autores
renomados, acredito que tenho algo que falta em muitos de quem se esperaria um escrito com
esse tema: a liberdade intelectual de um mero leigo, ignorante da erudição acadêmica e, talvez
por isso, mais próximo da experiência comum do real.
“Católico”, por si só, já é um termo bem audacioso, cuja própria enunciação já é um
argumento em favor de quem quer que se arrogue esse título. Sua origem grega é καθολικός,
junção de duas palavras, κατά (conforme, segundo) e ὅλος (inteiro, todo), que geralmente é
traduzido por “universal”. Acontece que o termo “universal”, com toda a sua pretensão sideral
e genérica, por si só não é capaz de deixar tão claro a mensagem que se pretendia passar
quando esse termo foi cunhado por cristãos. Chamava-se “católico”, nesses primeiros séculos
de cristianismo, aquele que queria dizer que não estava inventando moda, que fazia que nem
(κατά) todo mundo (ὅλος). Mais à frente, no quinto século, São Vicente de Lerins irá dizer em
seu Communitorium que a Fé da Igreja é aquilo “quod ubique, quod semper, quod ab omnibus
creditum est”, “que todos, sempre e em todo lugar creram”. O “católico” surge em
contraposição ao “herege”, que é aquele que quer ser diferente da totalidade, escolhendo
(αἱρέω, hereo) aquilo em que quer acreditar.
Eis, pois, a cosmovisão identitária base do cristianismo, em cima da qual toda a nossa
história foi construída. Desde as primeiras décadas, a maior ofensa que se pode dizer a um
pretenso seguidor de Cristo é dizer que ele está inventando moda, adicionando algo ao
Evangelho, querendo imiscuir pensamentos e práticas particulares dentro da universalidade da
Igreja. Mesmo sem usar exatamente esses termos, toda contenda teológica da história, ainda
que fora dos ambientes do que hoje se compreende por Igreja Católica (Apostólica Romana),
consiste em querer demonstrar que você é o católico, o representante do senso comum da Fé,
e que o outro é o herege, o desviado excêntrico.
Como se vê, quanto maior a pretensão do termo “católico” em conferir a marca
indelével de uma verdade evidente e universalmente cognoscível, mais evidente fica a
vacuidade do termo e a incapacidade de ele simbolizar algo além de um anelo subjetivo de
estar confortavelmente no lado certo. Acreditar naquilo que o foi por todos, sempre e em todo
lugar transmite uma paz que seria perfeita se não fosse simplesmente mentirosa. Noções
básicas de história da Igreja fazem ver que nunca houve crença ou prática verdadeiramente
universal, de modo que, em certo sentido, a nada se pode chamar propriamente católico. Pelo
contrário, houve épocas que o que entrou para a história como a posição “católica” era, na
verdade, uma opção minoritária e restrita. Percebendo isso, mas sem querer abrir mão dessa
cosmovisão de “católicos” e “hereges”, cristãos de todas as épocas esboçam os limites da
catolicidade, com outros parâmetros além dos que a própria palavra e visão tradicional
implicam, sem perceber que colocar fronteiras no universal é simplesmente fazer com que o
que quer que esteja dentro das cercas não seja mais universal.
O lado vencedor
Apesar do imenso furdunço que é a história do cristianismo, hoje entende-se que
católico é aquele membro da Igreja Católica, ou seja, aquela pessoa que, submetida a uma
hierarquia eclesiástica ligada institucionalmente ao bispo de Roma (Papa), recebe por esse
meio os sacramentos e a doutrina. É desse tipo de gente que, segundo dados da Santa Sé,
compõe-se 59% dos cristãos e 17,37% da humanidade, somando cerca de 1,390 bilhão de
fiéis.
Para discernir se alguém ou algum grupo é católico ou não é, o caminho mais fácil e
comum é verificar se há adesão doutrinária à autoridade romana em questões historicamente
disputadas, tais quais a presença real de Cristo na Eucaristia, a divisão hierárquica da Igreja, a
Imaculada Conceição da Virgem Maria, a veneração dos santos etc. Todavia há de se
considerar que fazer parte da Igreja, na opinião dos mesmos teólogos que, ao longo dos
séculos, definiram todas essas grandes doutrinas, é muito mais do que meramente não se opor
formalmente a ela em questões teológicas historicamente disputadas. Fazer parte da Igreja é
estar intimamente unido a Cristo, o que pressupõe uma série de dos and don’ts até bem
específicos que, em cada época, a Igreja enquanto instituição hierárquica fez questão de
afirmar com atos e omissões.
De acordo com a doutrina católica, a vida de união com Deus é denominada “estado
de graça”, e se a perde pelo cometimento de um único ato que seja pecado mortal. Quem não
está em estado de graça também não faz parte da Igreja, na medida em que o pecado constitui
uma cisão completa do Corpo Místico de Cristo, e, portanto, está necessariamente condenado
ao inferno. Dadas as consequências terríveis do pecado, que mata a alma, nada há de
surpreendente em encontrar nos cristãos mais dedicados de todas as épocas esforços
desmedidos para combatê-lo não só na própria alma, mas também nas almas alheias.
Semelhante é a questão da Fé: para a teologia católica, basta uma única recusa de crer num
aspecto da doutrina para não se ter mais fé sobrenatural e ter suas crenças na condição de
mera opinião.
Justamente por essa questão importantíssima da noção sobrenatural de Igreja é que se
pode falar que há falsos católicos, pessoas que, mesmo tendo práticas católicas, ou até mesmo
ocupando cargos dentro da Igreja, não só não fazem parte dela de fato em razão dos seus
pecados, como constituem-se verdadeiros inimigos de Cristo, considerando que até mesmo
uma vida aparentemente virtuosa a níveis heróicos é, pela doutrina, abominável diante de
Deus se falta a adesão à doutrina romana toda inteira, pelo menos implícita e demonstrável
por meio da “comunhão” com o clero institucionalmente reconhecido. Naturalmente, é
possível e até comum, como irei demonstrar mais adiante, que mesmo uma vida sacramental
intensa não valha de muita coisa no sentido de garantir a integridade da doutrina e, portanto, a
catolicidade dos envolvidos.
A vida católica, nesse sentido, é eminentemente uma vida de virtudes dentro do dito
Seio da Igreja e, para além de documentos papais (raríssimos antes da segunda metade do
século XX e, crescentemente, ainda mais antes) e demais pronunciamentos de Roma, o que
influencia de fato a vivência e a mentalidade católica são os santos. Por meio do processo de
canonização, a Igreja carimba a vida e obra de um indivíduo com um selo de “aprovado”, para
que, por todos os séculos, seguir seus passos e ouvir seus ensinamentos seja tido como
caminho reto e seguro até a pátria celeste.
A vida dos santos é matéria prima de reflexões teológicas, serve como exemplo
prático da doutrina e, de quebra, decora igrejas com imagens e fomenta festividades locais.
Além disso, é importante lembrar que muitos dos santos, mesmo em vida, foram
tremendamente influentes, destacando-se nas cenas políticas e doutrinárias de sua época e,
não poucas vezes, fundando congregações e formando, com suas particularidades, dezenas de
milhares de homens. O alto clero da Igreja tem o poder de falar em nome de Deus, mas vê-se
que, na história, ele geralmente se limitou a aprovar e difundir o que outros indivíduos, mais
audaciosos, falaram a partir de sua amizade com Deus, tomando suas palavras e ações como
medida segura do que se deve fazer ou evitar.
Há quem tente negar que o chamamos oficialmente de catolicismo é fruto muito mais
da vida e obra grandes disruptores do status quo de suas épocas do que da doutrina
propriamente dita (catecismos, documentos papais e concílios), desejando um catolicismo
mais intelectual e almofadado, livre dos excessos de almas apaixonadas que não se
preocupam tanto com estrutura da argumentação, política institucional e demais nuances
próprias de um homem das ciências. Não há todavia, como fazê-lo. A história da Igreja é a
história dos grandes homens e daqueles que, inspirados por eles, tentam seguir-lhes os passos.
O santo que ensina o doutrinador, não o contrário.
Quem é católico?
Segundo a visão teológica hegemônica, ser católico, mais do que tomar parte em
certas atividades eclesiásticas ou mesmo viver uma vida de virtude, é crer na doutrina da
Igreja. A título de curiosidade, referencio que há um padre canonizado (esqueci agora o
nome) que vivia uma vida abertamente depravada durante toda a sua vida. Como foi, pois,
elevado a glória dos altares? Por ocasião da perseguição dos calvinistas franceses aos
católicos, ele foi instado a renunciar a um dogma da Fé, ao que respondeu “posso ser safado,
mas não sou herege”, sendo posteriormente morto e tido por mártir e santo. Contudo, se há
alguém que se recusa a crer em algum artigo da doutrina definida pelo Catecismo, por
exemplo, a própria doutrina vai ser curta e grossa em dizer que essa pessoa não é católica e
dificilmente escapará de passar a eternidade com o demônio.
Para exemplificar, vejamos como o Cisma do Oriente, que até hoje divide os
sucessores dos apóstolos entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas, se deu entre
comunidades que, para todos os efeitos, partilhavam a mesma vivência. Ambas as partes
tinham a mesma Fé e a mesma prática, desenvolvidas ao longo de um milênio de unidade e, se
bem que se possa argumentar que os motivos foram mais políticos do que espirituais, a
excomunhão mútua entre o Papa e os patriarcas orientais foi justificada tão somente por uma
discordância em um ponto aparentemente tão abstrato e de pouca relevância quanto à maneira
que se dava a procedência entre as pessoas divinas da Santíssima Trindade.
Essa noção de que ser parte da Igreja depende da adesão integral e convictíssima a um
sistema teológico complexo e altamente erudito precede em séculos o Cisma do Oriente,
remontando aos primeiros dias de cristianismo, assim como o sucede até os dias de hoje, de
modo a ser verdadeiramente indissociável ao catolicismo. Inúmeros exemplos poderiam ser
dados nesse sentido para mostrar que a unidade da Igreja foi compreendida em função daquilo
em que se acredita, às minúcias, de modo a justificar que mesmo os maiores hierarcas
poderiam ser considerados como membros de outra igreja e sofrer as devidas represálias
institucionais se falhassem em concordar com um só ponto teórico de doutrina.
Dito isso, gostaria de trazer uma reflexão: dizer que crê é o mesmo que crer? Para
trazer essa reflexão a uma questão de ordem bem prática, falemos de moral sexual. O papa
Pio XII, em sua encíclia Castii Conubii, assim como o papa Paulo VI, em sua Humanae Vitae,
definiram, segundo um pensamento teológico precedente, que o uso de qualquer método
contraceptivo é gravemente imoral, ensinamento reforçado por uma série de teólogos e
documentos do Vaticano desde então. Repito: gravemente imoral, assim como matar alguém,
cuspir na cruz ou faltar missa de domingo. Se perguntado sobre o tema, qualquer católico que
queira ser coerente com sua necessária submissão à Igreja em questão de moral, não vai poder
dizer senão que concorda, que crê nesse ensinamento. Curiosamente, a história aponta que
Paulo VI enviou o rascunho da Humanae Vitae para todos os bispos do mundo, mas apenas
dois responderam aprovando-a. E o resto? Não podendo dizer que discordava, escolheu,
então, ignorar…
Olhemos, no entanto, nas nossas igrejas, nem mesmo para os fiéis, a quem, apesar de
terem praticamente todos acesso instantâneo à internet, ainda se poderia tentar excusá-los
alegando ignorância, mas olhemos para os clérigos, que gastaram, no mínimo, oito anos de
suas vidas com a única finalidade de estudarem doutrina católica: eles realmente levam isso a
sério? Pode um padre ver que a quase totalidade de seus fiéis afundados numa prática que, a
Igreja o ensina claramente, vai necessariamente fazer com que passem a eternidade no lago de
fogo e não pregar sobre isso em termos claros, inequívocos e ser intransigente quanto às
conclusões lógicas, custe o que custar? Se crer significa algo, só pode significar agir como se
algo fosse realmente verdade. De quem diz crer e, na prática, escolhe ignorar o ensinamento,
não se pode dizer senão que é um farsante, um hipócrita e que sua devoção não é senão um
espantalho. Não sou eu quem o digo, é Jesus Cristo, a Igreja e os santos.
Práticas e crença estão intimamente ligadas, o que é confirmado em toda a história da
Igreja, por exemplo, pelo adágio lex orandi lex credendi. No mesmo sentido, é demonstrado e
demonstrável que vidas diferentes implicam e pressupõem visões de mundo diferentes, a
partir de que podem ser concebidas doutrinas distintas, não o sendo somente por desinteresse
ou imperícia dos envolvidos. A unidade institucional da Igreja é preservada teologicamente
fingindo que a negação prática, nas ações, não é o mesmo ato, em contextos diferentes, que a
negação formal, por escrito e até mesmo a negação por escrito pode ser tolerada para
preservar essa unidade exterior concebida modernamente.
É graças a essa jogada, no fundo, política que nós hoje temos diversas visões
contraditórias dentro da unidade institucional da Igreja (ou seja, sob a mesmo órgão de
administração eclesiástica), que não se contradizem somente umas às outras (caso em que se
poderia alegar que não é nada grave, que há espaço na Igreja para diversidade de opiniões),
mas que são irreconciliáveis com aquilo que já foi definido como doutrina católica, como é o
caso da imoralidade do uso de anticoncepcionais ou outros que mais e mais graves que
adiante se verá. A consciência do tamanho da Igreja e a descentralização do fluxo de
informação favorecido pelos meios de comunicação, aliados à necessidade política de se
manter a unidade institucional tornou impraticável, há décadas, aquela pretensão de
hegemonia doutrinária dos últimos dezoito séculos.
High church, low church and everything in between
Conformistas e entusiastas
Trato agora das diferentes vivências do ser católico, as quais pretendo dividir em duas
tendências de pensamento, que não são exatamente opostas: a conformista e a entusiasta. Na
verdade, essas duas tendências estão presentes não só em grupos católicos e na Igreja como
um todo, mas também em qualquer grupo, toda instituição e, no fundo, dentro de cada um de
nós. Para dar uma definição, digo que o conformista é aquele que prefere manter o status quo
a ameaçar a unidade, que prefere ter paz a ter razão, errar com todo mundo do que acertar
sozinho. O entusiasta, por outro lado, não teme ser diferente dos demais, pois tem claras em
sua mente ideias que toma por verdade indiscutível, busca que suas ações reflitam essas
crenças e está disposto a ser coerente com elas custe o que custar.
Cabe dizer que ser conformista ou entusiasta é muito mais uma questão de postura do
que de aderir a esta ou aquela crença. No meio católico de hoje, por exemplo, o status quo é
repleto de ideias que já foram tidas por vanguardistas e revolucionárias, assim como vimos
que a doutrina católica hegemônica sempre foi escrita por entusiastas.
A unidade eclesiástica, que já foi enxergada em termos doutrinários, hoje é, na prática,
enxergada somente em termos administrativos. Ser católico, então, deixa de ser uma questão
de adesão integral a um sistema teológico complexo e vida de virtude, como vimos, e passa a
ser questão de meras formalidades exteriores. Um determinado clérigo pode ignorar
abertamente, ou até mesmo contradizer com sua vida e sua fala vários pontos da doutrina
católica, mas, se continuar tendo boas relações com seus superiores e pares, indo nas
concelebrações e pagando as devidas taxas, dificilmente terá alguma sanção que constate que
a crença dele e a da Igreja são incompatíveis.
O mesmo vale para os fiéis: não se concebe, a nível institucional, interpessoal ou
autoconsciente que é plenamente possível ir para a missa com frequência, comungar, rezar o
terço, fazer obras de caridade e até mesmo se confessar sem que nada disso te faça um
católico de acordo com a visão teológica tradicional. A essa altura, reforço que doutrina e
virtude são indissociáveis na visão católica de todos os séculos: ignorar a doutrina é pecar, o
pecado nos separa de Deus e, sem Deus, não há virtude real possível (o inferno está cheio de
boas intenções).
A religião da imensa maioria das paróquias de hoje ainda é um catolicismo
inconsciente do caráter mais distinto da catolicidade face aos diversos grupos protestantes: a
historicidade. A Igreja não é a única instituição que escolheu rejeitar seu passado, mas, de
todas, é a que mais sai perdendo com isso, justamente na medida em que o maior argumento a
seu favor é a coerência que perpassa os séculos e as nações. Há coerência entre a maneira
moderna de se viver a liturgia, horizontalizada, dessacralizada, descomunitarizada e a maneira
histórica? O véu umeral e as ministras da eucaristia fazem parte do mesmíssimo sistema de
crenças? Não digo que o século XX seja o primeiro a ver hegemônica uma forma de
catolicismo incoerente com seu passado em algum nível, mas foi o primeiro a ver uma
descontinuidade litúrgica, devocional, artística e até doutrinária tomada como projeto pessoal
da administração eclesiástica até seu mais alto grau.
No meio disso tudo que a maioria de nós nasceu, em ambientes cuja própria
“renovação”, pouco a pouco, foi dando lugar ao espírito de decrepitude das nossas decadentes
comunidades paroquiais. Decadentes pois os avós são maioria, os filhos mal têm filhos e os
poucos netos que se tem já nem batizados são, ou, no máximo, frequentam catequese só para
constar. Há exceções, mas quem vai negar que essa é a regra? Nas homilias, pouco se ouve de
doutrina ou de história e a catequese, que também deveria tratar desses temas, não poucas
vezes é conduzida por mulheres de meia-idade altamente despreparadas. A arte sacra (música
e arquitetura) é sofrível, os padres são mais burocratas ou ativistas do que pastores… Todo
mundo sabe bem como é.
Nesse contexto, em que que a maior virtude a ser buscada é não se destacar de um
todo medíocre a fim de não prejudicar a “unidade”, surge um movimento heterogêneo de
entusiastas: o conservadorismo-tradicionalismo. Claro que há questões bem importantes que
diferenciam o conservadorismo de um Bento XVI de um tradicionalismo sedevacantista, mas
a narrativa dos que aderem a algum ponto desse espectro é a mesma: achei no passado da
Igreja um tesouro que “eles” queriam esconder de mim. “Eles” podem ser a teologia da
libertação, os modernistas, os revolucionários, os ultramontanos, a fumaça de Satanás ou
qualquer conceito abstrato que calhe personificar como inimigo.
O entusiasta conservador-tradicional gosta de ler, ou pelo menos de citar, encíclicas,
livros de santos, concílios e tratados teológicos do século passado. Ele crê num passado
idílico de pureza doutrinal e não consegue entender porque a Igreja abriu mão de seu tesouro,
porque os padres não pregam mais como Santo Afonso, porque as missas não são mais como
as do Padre Pio, porque não se ouve mais Mozart nas igrejas… Quanto à moral e à fé, ele se
orgulha de não ser um relativista, afinal “o que era pecado ou verdade ontem continua sendo
pecado ou verdade hoje”. Esse relativismo é um de seus maiores inimigos, porque confunde
os fiéis, afasta da sã doutrina e não demora muito para matar a alma. É o
conservador-tradicional que, numa corrente contrária à da Igreja institucional de hoje, se
alegra em chamar os outros de hereges e lembrar do tempo das excomunhões e inquisições.
Quando esse tipo de fiel, sozinho ou em grupo, começa a levar realmente a sério
concepções doutrinárias tradicionais sobre o que é o pecado e quais ações constituem pecado
e portanto busca um afastamento radical do que é considerado uma “vida normal” por pessoas
mais conformistas de dentro e fora da Igreja, ele facilmente é acusado de sectário, de
extremista. Essas crenças e práticas inflexíveis, “afastam as pessoas de Cristo”, “são
contrárias à caridade”. Só que quem acusa esquece que ele é um entusiasta e que, na verdade,
a história do cristianismo foi escrita por entusiastas.
O cristianismo primitivo, ou seja, desde a fundação da Igreja até o Édito de Milão em
313 d.C, tinha muitas características do que hoje se chamaria seita. Era composto por
comunidades fechadas e extremamente rigorosas, bem diferente do que é hoje. Só poderia
participar da missa quem fosse batizado e a preparação para o batismo poderia demorar anos
passando por situações que a mentalidade comum de hoje abomina: “doutrinação”, “privação
de sono”, “privação de alimento”, “exclusão social”... Caso pecasse gravemente, geralmente
com sexo fora do casamento ou apostasia (caracterizada por jogar um punhado de incenso
numa fogueira dedicada ao imperador romano), o fiel poderia ser expulso da comunidade e
passar anos ou até décadas para ser readmitido novamente, com penitências que variavam
entre não ingerir nunca mais alimentos de origem vegetal, vestir uma túnica rude e cobrir-se
de cinzas, só comer uma vez ao dia… Bem extremista, não é?
A falsa concordância
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