Há quem priorize um e há quem priorize o outro, seja em si ou nos outros. Mas o que é cada um?
Faz mais de uma semana em que penso em caráter como uma questão de generosidade e integridade. Generosidade enquanto marca de abundância no agir, como oposição à mesquinharia, à pusilanimidade. Integridade, por sua vez, no sentido de coerência “unapologetic”. Curiosamente, quando fui consultar um livro que vira tratar do tema (Manual de Liderança Militar), encontrei caráter definido como “energia da vontade e firmeza de princípios”. Feliz coincidência essa entre a minha percepção e a do escritor, que ajuda muito a esclarecer o que quero dizer com “generosidade e integridade”.
Character é um termo inglês que, muito embora também traduza “caráter”, serve para designar igualmente um personagem. Só para ilustrar, lembremos do “Choose your character” dos videogames de luta. Ora, o que é um personagem? Para responder isso, pensei em “pessoa imaginária”, mas não me pareceu suficiente, porque parece ignorar que todo personagem só existe dentro de uma narrativa definida. Por mais complexa que seja a obra, o personagem se diferencia da pessoa na medida em que sua existência é limitada ao recorte de perspectiva do autor. Pessoas existem mesmo que não haja ninguém para contar sua história, enquanto que o personagem só existe na história e, muitas vezes, em função da trama. Parece melhor, então, dizer que o personagem é um recorte de personalidade, personificada dentro de uma narrativa. Essa não é também uma definição de herói?
Como já disse e é facilmente verificável, grande parte da população, pelo menos dentre os jovens, pauta toda a sua vida tendo em vista se tornar um herói. Se isso te soa estranho, é porque talvez ainda estejas pensando que herói é somente o Homem-Aranha. Mas não, pelo que eu já disse, também são heróis: o santo, o pai de família, o militar, o jovem cristão, o universitário engajado, o cidadão de bem, o revolucionário, o profissional realizado, o bon vivant, o pregador etc etc etc. São ideais personificados, nascidos de recortes narrativos das vidas de uma ou mais pessoas, explorados e formados por quem quer que fale deles.
Quem toma por objetivo de vida conformar-se a um desses modelos de vida frequentemente se frustra e, como vemos muito acontecer, acaba por cair numa indiferença terrível. Todos nós já vimos e vemos, cada vez mais, pessoas profundamente frustradas, desorientadas, enfim, desanimadas. Mas por quê? Porque haveríamos nós de nos frustar ao percorrer o mesmo caminho que já vimos pessoas brilhantes trilharem? Por que, ao mirar em ser como tal herói, tantos se transformam em verdadeiros monstros?
Precisamente por não fazer a adequada distinção entre caráter e character. Se quero ser um profissional realizado, é senso comum que devo buscar fazer o que um profissional realizado fez. Quem se atenta ao character, no entanto, vai necessariamente se frustrar. Buscando imitar o exterior, vai querer estudar onde o seu herói estudou, casar quando ele casou, investir como ele investiu, fazer uma carreira parecida com a sua e, em fazê-lo, vai descobrir que é impossível, frente não só à singularidade absoluta das circunstâncias de cada um, mas também à incomunicabilidade delas. No mesmo sentido, se for alguém com mais acesso à informação (como nós o somos hoje), vai também facilmente desanimar entre tantos e tão contraditórios relatos. Afinal, há quem diga que tal carreira satisfaz e uma outra só traz frustração, assim como há quem afirme, convicto, o contrário, ou traga uma terceira, quarta, infinitas vias… Poderia-se pensar, então, que não há nada que se possa fazer para ser profissional realizado.
Mas há, se considerarmos aquilo que os une todos: generosidade e integridade. Quero ser um bom militar: devo então, ser expansivo ou manso, dedicar-me à administração ou às operações? A resposta é que devo fazer o que todo bom militar faz, ou seja, agir com energia de vontade e firmeza de princípios. Se quero ser santo, ou seja, digno de ser tido como exemplo de amizade com Deus, qual estado de vida escolho? A que obras me dedico? Que práticas de espiritualidade elejo? Tudo isso pouco importa, desde que você tenha aquilo que todos os verdadeiros santos, oficiais e inoficiais, tiveram: generosidade e integridade.
A maneira como cada indivíduo exprime e desenvolve seu bom caráter é necessariamente individual, tão individual que não deve haver surpresa quando pessoas igualmente admiráveis tomam caminhos opostos a ponto de não haver conciliação possível. Há aqueles cuja generosidade pede que dêem tudo, assim como, para outros, pede que não abram mão de nada. Há pessoas que, generosamente, assumiram cargos de grande importância, mas também há aqueles que generosamente fugiram deles. A mesma integridade que pode chamar uma pessoa adira a uma série de preceitos pode, igualmente, fazer com que dela se afaste mais pra frente.
Ser generoso e íntegro é uma tarefa para a vida inteira e, por mais que custe muito, é a única que vale a pena, rumo à plenitude de nossa individualidade. Que, portanto, não desprezemos pessoas com um ideal diferente do nosso quando elas o buscam com um bom caráter que, muitas vezes, nos falta.
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