sábado, 29 de junho de 2024

Verba vincent: as palavras vencem!

    Aprendi esse dito com um militar de elite, que, por sua vez, viu-as esculpidas em pedra na academia em que se formam os temidos Marines norte-americanos.

    É notável que, justamente onde mais há investimento em tornar o homem uma máquina de guerra, o louvor  não seja dado às armas, mas sim às palavras. Nesse sentido, lembro-me de outro dito, este de Castro Alves, escrito em mármore, que vi todos os dias em que estudei no Colégio Militar: “Nem cora o livro de ombrear co’o sabre, nem cora o sabre de chamá-lo irmão”.

    As palavras são muito mais poderosas que o sabre. Um sabre pode cortar sua cabeça fora, mas só as palavras são capazes de fazê-la virar em outra direção. Mesmo a bomba atômica, a arma de maior letalidade conhecida, explode uma única vez e seus efeitos, duradouros que possam ser, tem prazo de validade e, imensos que possam ser, tem alcance limitado. As palavras, pelo contrários, uma vez enunciadas, ecoam pela eternidade. A bomba de Hiroshima, há 80 anos e por alguns minutos, atingiu a cidade pelo seu poder físico, mas, pela narrativa que foi construída, não só atingiu todo o mundo pontualmente, mas atingirá por tempos tão longos quanto longa seja a existência humana.

    As palavras vencem, pois, mesmo diante das carnalíssima experiência da morte violenta, exaltam aquele acontecimento até a campo da imaterialidade, fazendo do corpo jacente ou um mártir a ser venerado ou um sangrento troféu. Um tiro mata a pessoa, mas a palavra é capaz de torná-la imortal.

    Na vida quotidiana, as palavras também vencem. Nós, geralmente, não nos lembramos de uma emoção senão por aquilo que dissemos dela ou ouvimos dizer. É por isso que as palavras são capazes de curar as maiores feridas da alma: os traumas, em sua maioria, não sobrevivem senão na narrativa que temos deles. Se não podemos mudar o que vimos ou vivemos, nós podemos ressignificar o que enxergamos e, desse modo, mudar o que sentimos.

    Palavras vencem, mas, dentre as palavras, a escrita é sempre a campeã. Escrever, escrever bem, é quase como um ato sobrenatural.  Não à toa, o letramento foi por tanto tempo e em tantos lugares intimamente ligado à religião.

    Os homens que falam transmitem suas ideias a seus adjacentes no aqui e agora. Os que escrevem e lêem dialogam com os mortos, os vivos e os que ainda hão de nascer. Suas palavras duram tanto quanto o meio que as recebe e alcançam tudo que ele puder alcançar. O alcance e rapidez do espectro eletromagnético e a durabilidade da rocha emprestados ao pensamento humano: que sublime!

    Os acontecimentos mais impressionantes, as paisagens mais maravilhosas e as paixões mais arrebatadoras não são nada se não há uma mente letrada capaz de, simultaneamente, atribuir-lhes uma descrição e apreender delas uma compreensão mais profunda do termo com que se as descreve.

    Rápida lição: escreva. Escreva para importar significado do vastíssimo campo da experiência humana de milênios à nossa mesquinharia quotidiana.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ir à missa