Aprendi esse dito com um militar de elite, que, por sua vez, viu-as esculpidas em pedra na academia em que se formam os temidos Marines norte-americanos.
É notável que,
justamente onde mais há investimento em tornar o homem uma máquina de
guerra, o louvor não seja dado às armas, mas sim às palavras. Nesse
sentido, lembro-me de outro dito, este de Castro Alves, escrito em
mármore, que vi todos os dias em que estudei no Colégio Militar: “Nem
cora o livro de ombrear co’o sabre, nem cora o sabre de chamá-lo irmão”.
As
palavras são muito mais poderosas que o sabre. Um sabre pode cortar sua
cabeça fora, mas só as palavras são capazes de fazê-la virar em outra
direção. Mesmo a bomba atômica, a arma de maior letalidade conhecida,
explode uma única vez e seus efeitos, duradouros que possam ser, tem
prazo de validade e, imensos que possam ser, tem alcance limitado. As
palavras, pelo contrários, uma vez enunciadas, ecoam pela eternidade. A
bomba de Hiroshima, há 80 anos e por alguns minutos, atingiu a cidade
pelo seu poder físico, mas, pela narrativa que foi construída, não só
atingiu todo o mundo pontualmente, mas atingirá por tempos tão longos
quanto longa seja a existência humana.
As palavras vencem,
pois, mesmo diante das carnalíssima experiência da morte violenta,
exaltam aquele acontecimento até a campo da imaterialidade, fazendo do
corpo jacente ou um mártir a ser venerado ou um sangrento troféu. Um
tiro mata a pessoa, mas a palavra é capaz de torná-la imortal.
Na
vida quotidiana, as palavras também vencem. Nós, geralmente, não nos
lembramos de uma emoção senão por aquilo que dissemos dela ou ouvimos
dizer. É por isso que as palavras são capazes de curar as maiores
feridas da alma: os traumas, em sua maioria, não sobrevivem senão na
narrativa que temos deles. Se não podemos mudar o que vimos ou vivemos,
nós podemos ressignificar o que enxergamos e, desse modo, mudar o que
sentimos.
Palavras vencem, mas, dentre as palavras, a escrita é
sempre a campeã. Escrever, escrever bem, é quase como um ato
sobrenatural. Não à toa, o letramento foi por tanto tempo e em tantos
lugares intimamente ligado à religião.
Os homens que falam
transmitem suas ideias a seus adjacentes no aqui e agora. Os que
escrevem e lêem dialogam com os mortos, os vivos e os que ainda hão de
nascer. Suas palavras duram tanto quanto o meio que as recebe e alcançam
tudo que ele puder alcançar. O alcance e rapidez do espectro
eletromagnético e a durabilidade da rocha emprestados ao pensamento
humano: que sublime!
Os acontecimentos mais impressionantes,
as paisagens mais maravilhosas e as paixões mais arrebatadoras não são
nada se não há uma mente letrada capaz de, simultaneamente,
atribuir-lhes uma descrição e apreender delas uma compreensão mais
profunda do termo com que se as descreve.
Rápida lição:
escreva. Escreva para importar significado do vastíssimo campo da
experiência humana de milênios à nossa mesquinharia quotidiana.
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