"O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe"
Todo mundo tem alguém em mente quando se fala de pessoa má.
Esse posto, que geralmente recai sobre um nome como Hitler, o qual,
todos o sabem, estava a frente do projeto que massacrou mais de 6
milhões de judeus, também é atribuído com frequência aos protagonistas
do mais recente crime fora do comum que figura nos jornais.
Seja
nos genocídios de lá da Europa ou dos absurdos deste Brasil, há algo que
sempre impressiona: salvo raras exceções, os criminosos são gente como a
gente. No recente caso dos rapazes do Discord, é inegável que, em
qualquer ambiente escolar, eles passariam completamente despercebidos.
Seus perfis nas redes sociais eram como os dos meus colegas, suas
gírias, seus passatempos também... em tudo parecidos, exceto, é claro,
quando organizavam seu esquema de abuso contra adolescentes.
Tenho
lido um livro chamado Ordinary Men, que trata de um batalhão de polícia
alemã empregado no extermínio dos judeus na Segunda Guerra. Um
batalhão, com efeito, é composto de homens. E os homens em questão, como
o nome do livro indica, não tinham nada de extraordinário: eram
trabalhadores, com seus trinta e poucos anos, definitivamente não os
mais fanáticos, que, num curto espaço de tempo, passaram a ser aqueles
que atiravam sistematicamente não só em outros homens trabalhadores, mas
também em mulheres, crianças e idosos, milhares por dia. E, assim como
os rapazes, não se julgavam culpados por isso.
É preciso ser
franco: enquanto durar este mundo, o mal conviverá com o bem. Teremos
traficantes que são excelentes pais de família, juízes desonestos e
pregadores eloquentes que ultrajam os altares de Deus. Mas nós nos
enganamos se procuramos uma divisão externa. Não é só que os bons e os
maus estão misturados: o bem e o mal, isso sim, estão misturados dentro
de cada um de nós.
Há quem diga que o maior truque do diabo foi
convencer o mundo de que ele não existe. Sinceramente, não acredito mais
nisso. É um trabalho difícil demais, mesmo para o diabo, extirpar a
noção inata em cada ser humano de que existem coisas tais como o bem, o
mal, o vício e a virtude. O que tenho a impressão que o diabo faz é
convencer as pessoas de que ele tem chifres. Convencidos disso, parecerá
que sempre seremos capazes de reconhecer o mal, já que ele seria
necessariamente repulsivo.
É graças a esse pensamento que muitos de nós,
culpados de verdadeiros crimes contra a justiça, não nos julgamos
pecadores. "Pecador, eu? Veja, eu sei o que é pecado: pecado é matar,
como o fulano faz. Se o que fiz é errado, por que não me sinto mal?"
Contamos demais com a nossa própria consciência, com a nossa capacidade
de mantermos uma vida coerente, esquecendo o princípio bem elementar de
que até o fruto proibido do Paraíso era "bom para comer e agradável à
vista".
O mal, mesmo antes da corrupção da natureza humana, é
atrativo. É instigante, desafiador, colorido. Promete aventuras,
vantagens e poder. Sempre será assim, ou jamais o escolheríamos.
O
diabo, então, não tem chifres. Pelo contrário, é muito bem apresentado,
como bom marketeiro que é. Todo má ação aparenta ser, mesmo que não
boa, ao menos justificável! Foi nessa consideração que percebi que, sem
um parâmetro externo a nosso próprio juízo humano não há limites para a
injustiça e a maldade que alguém pretenda justificar. Com as medidas
certas de propaganda e retórica, Hitler convenceu uma nação da
necessidade de um genocídio. Jovens convencem outros a se destruírem e
destruírem outros a seu redor. E a lista segue, tão grande quanto grande
é o mundo.
Qual lição, se apenas uma, se pode tirar de tudo
isso? Sem dúvida, confiar menos em nós mesmos. Ao longo de toda a vida,
várias vezes por dia, iremos querer fazer o mal e estaremos plenamente
convencidos de que é o adequado a se fazer. Se estamos acostumados a nos
medirmos apenas pela nossa medida, não teremos recurso nenhum quando a
vida nos propuser alguma grande safadeza. Safadezas estas que, não
importa quantas e quão grandes, poderão sempre coexistir com uma vida
aparentemente digna, dando assim a ilusão de que será possível sairmos
impunes. Até que chegue a eternidade. Então, haverá choro e ranger de
dentes.
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