ou
Desculpas & Dedicação
Com esses termos, gostaria de fazer distinção entre as duas posturas possíveis nas diversas situações da vida.
O que é respaldar-se?
Geralmente é usado como termo jurídico, que significa fazer algo conforme legislação vigente, de modo que você está “no seu direito”. Por exemplo, alguém que queira dirigir abaixo da velocidade da via, desde que não seja em velocidade inferior a 50% da prevista, está respaldado, não há transgressão.
Não é bom, portanto, estar respaldado? Para entender melhor, um exemplo da vida católica. Quem voluntariamente deixa de confessar-se ao menos uma vez por ano, entende-se há séculos, comete pecado grave. Nesse contexto, alguém que se confessa somente uma vez por ano já faz o que a Igreja pede, está respaldado: ninguém lhe pode acusar, por isso, de pecado. Mas será que basta o respaldo? A prática e a literatura do último milênio assumem que uma prática fiel da religião irá exigir uma confissão no mínimo mensal (naturalmente, só quando exequível) para se manter uma boa higiene de alma. O respaldo te exime de culpa, mas será que te favorece uma vida frutífera?
Assim como com a confissão, temos inúmeras outras situações, não só religiosas, em que há um dilema entre o respaldo e a responsabilidade, entre fazer o mínimo previsto e querer se importar de verdade. De um pai que meramente paga pensão, pode-se dizer que cumpre com suas obrigações legais. Será que acaba aí? Alguém que vê alguém chorar na rua pode perfeitamente ignorar, não há nada que a obrigue ao contrário. É isso mesmo? Mesmo após anos de relacionamento, construindo a vida juntos, um jovem pode simplesmente dizer que acabou e que vai embora. Parece razoável?
É nesse sentido que quis trazer, também, a ideia de dar desculpas. As desculpas que damos ou vemos os outros darem, na maioria dos casos, dão razão suficiente. Se cheguei atrasado, foi por causa do trânsito, Se não me dediquei num relacionamento, foi porque estava cansado. Se não ajudei uma pessoa, foi porque não tinha tempo. Não explica? Qual é, então, a diferença entre uma desculpa e a justificativa? A desculpa é a justificativa sem dedicação real. E o que é essa dedicação real? É o que nasce de um valor quase esquecido numa sociedade em que basta não fazer o mal para ser tido por bom: responsabilidade.
A responsabilidade, se levada a sério, necessariamente vai exigir que nós saiamos do nosso ambiente seguro de respaldo, vai exigir que abramos mãos de certos “direitos” em prol de nossos deveres para com o outro. Ser responsável é ir atrás, se interessar, buscar saber, querer resolver, custe o que custar. Ganhando o quê? Nada além da consciência tranquila do dever cumprido.
A responsabilidade não dá desculpas, dá soluções. Um exemplo disso, sobre o qual tenho pensado, é a questão da sinceridade. Nós aceitamos socialmente que basta não mentir e que alguém que é sincero já faz mais que o mínimo e, portanto, deve ser louvado. No entanto, quando consideramos mais a nossa vontade de ser sinceros do que a disposição alheia de nos ouvir, também fazemos algo aquém da responsabilidade. “Eu avisei, eu fui sincero, eu falei a verdade!” Certo, mas o que mais você fez? Se importar de verdade inclui buscar os meios eficazes para o bem do outro, que nem sempre são palavras, especialmente aquelas que falamos tempestivamente só para, depois, poder dizer que fizemos nossa parte. Como seria o mundo se nós, de fato, nos importássemos? Não com tudo, não com todos, talvez, mas, pelo menos, com aquilo que escolhemos e com aqueles com quem vivemos.
Enfim, esse texto é mais um desabafo do que o normal, porque tenho muito mais a aprender e compreender do que a ensinar. Admito que possa ser impossível ser responsáveis e interessados em tudo, que necessariamente haverão casos de fazer vista grossa e deixar certos problemas para os outros ou para depois. Nem por isso, cabe dizer, acho menos admirável quem aparenta não deixar passar nada, derramando-se todo em tudo que faz.
eu amo esse texto e amo pensar que ele realmente foi escrito por você! que sorte a minha <3
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