domingo, 15 de março de 2020

Era domingo

Domingo, 15 de março de 2020, 1h14 da manhã. 

    E nessas condições, estou aqui eu, Inácio, com toda a eloquência que só alguém que está acordado há dezoito horas e meia e está incomodado com algo tem.

    Pelo que sei, falar nessa hora é típico de ébrios e apaixonados, e esses tendem a falar loucuras. Eu, ao contrário, pretendo fazer um manifesto: um manifesto contra a loucura. Mas não nego que esteja levemente apaixonado, mas posso tentar dignificar esse sentimento dizendo que estou apaixonado pela humanidade, pelos filhos de Deus. Não é tão bom quanto gostaria, mas é o que temos pra hoje. Digo que acabo de voltar de uma festa de 15 anos. Ela teria tudo para ser uma festa pomposa e magna, mas não o foi. 

    As comidas, o ambiente e as vestes eram de primeiríssima qualidade e eu não posso conceber um jantar da nobreza francesa ou um baile austríaco que precisasse de mais do que havia hoje, mas nada disso impediu que a festa fosse decepcionante. Tudo parecia ser um cenário para um filme com atores mal-pagos. Imagino que a única diferença entre a pompa dos antigos e a pompa da festa de hoje não está em nada se não mas pessoas. Sim, nas pessoas: creio que a nobreza francesa via  um certo sentido nos seus jantares, mesmo que por motivos desprezíveis, como um apreço mesquinho à própria imagem ou à sensualidade. 

    Os austríacos talvez imaginassem que seus bailes eram a melhor coisa que podiam fazer, e que civilizavam os homens, mesmo que toda civilidade mostrada o fosse por orgulho. Eles acreditavam na pompa. Não os elogio por isso, mas ao menos acreditavam em algo. Acreditavam que um baile de quinze anos era um evento social de grande magnitude, pois era a porta de entrada na vida de verdade, embora estivessem errados ao afirmar que aquela era a vida de verdade. Hoje, não se acredita na pompa: nenhum rico realmente acredita que aquela papagaiada toda mostra seu sucesso. Não se acredita na mágica dos bailes, nem em qualquer espécie de vida de verdade. 

    O que há são os símbolos de uma sociedade que outrora já acreditou em algo, mas agora simplesmente age num estado de semi-consciência de acordo com seus tortos ideais de felicidade. Nós temos pessoas ricas, mas são pessoas sem nobreza. Pessoas pusilânimes. Ricos que fazem exatamente o que o mais inculto dos pobres faria em seu lugar. Pessoas que não são mais humanas. Humanos cometem erros de humanos. Essa nova geração comete erros de demônios. Nem de demônios. Cometem erros de pedras. Jovens que tem a ousadia de não serem gente. Não acho normal isso, e, se um dia achar, (que Deus me livre) terei me juntado à massa acéfala dos azumbizados pelas vanidades do século XXI, que nem de pompas podem serem chamadas.
 


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